29 Apr 2009

intimism (xli)

Na sequência da actividade ginasta da mais que tudo lá de casa, duas vezes por semana, durante duas horas, é-me dada a possibilidade de ter duas horas inteirinhas para mim, sentada no simpático bar do ginásio, de livro em punho, ou simples bloco de apontamentos onde vou despejando em linhas corridas muito do que por vezes aparece por aqui.
A mania dos caderninhos de escrita fina, o escrever de tudo e de nada e a extravagância de me dedicar a pensar sobre o que me é dado ver são alguns dos ingredientes dos postais que por aqui deixo. Como já todos perceberam este não é excepção. :)
A faixa etária dos meus companheiros varia entre os seis e os vinte e poucos anos. Rapazes e raparigas, ginastas, nadadores, praticantes de judo e basquetebal, em animada conversa ou em silêncio estudioso, livros espalhados sobre a mesa enquanto aguardam o início das actividades. Por vezes professores em intervalos de aulas e sempre a voz simpática e grave do senhor Isaltino (ele próprio brinca com a coincidência) que, de avental imaculado, azul escuro, quase até aos pés, domina no balcão enquanto serve meias de leite, águas sem gás e pão com todo o tipo de conteúdo. Não há doces, nem fritos, nem bolos carregados de creme. Umas envergonhadas tabletes de chocolate espreitam por cima da máquina de café mas raramente são objecto de compra.
Ontem esqueci-me do livro em casa e fiquei, de galão escuro e quente à minha frente, a observar. Saem as garotas da natação, cabelo a escorrer água convenientemente coberto pelo carapuço do casaco, as mais velhas directas para a rua, as mais pequenas encostadas às mesas à espera dos pais ou de quem as venha buscar. O Mestre (Judo), assim é tratado pelos alunos, atravessa o recinto calmamente, tem um ar pacíficio e quase contemplador, pede uma água e senta-se perto da minha mesa. Aborda-o um aluno com uma questão de peso versus categoria e escuto atenta a explicação que recebe. Numa outra mesa duas ginastas, já equipadas, acabam os trabalhos de casa tirando dúvidas uma à outra. Entra uma das mais altas jogadoras de basket que já vi, é imediatamente rodeada pelos colegas que lhe dão os parabéns pela vitória no último torneio. Ela cora, meio sem graça, grande demais para se esconder, e passa rapidamente o cartão no identificador, em fuga. Passa uma hora e pego no jornal da região para me entreter com o tempo que falta. Estou a ler um artigo sobre o Conde de Oeiras quando sou interrompida por uma voz fininha que me pergunta se se pode sentar. A garota à minha frente deve ter uns sete anos. Claro, respondo-lhe. E sorrio-lhe. Devolve-me o sorriso e senta-se na ponta da cadeira, afastada. Volto a concentrar-me na leitura e quando levanto os olhos, ela observa-me. Volto a sorrir. Espero a minha mãe, responde-me à pergunta inexistente. Está no centro comercial a comprar uma roupa. Telefonou-me a dizer que se tinha esquecido das horas e a perguntar se gosto mais de preto ou de cerise. Eu respondi preto porque não sei o que é cerise. Os olhos expressivos são levantados ao tecto e encolhe os ombros pequenos como se se desculpasse.
Olho em volta e vejo um livro de cor parecida que as ginastas esqueceram na mesa. Aponto-lho. Estás a ver aquele livro. Cerise é mais ou menos aquela cor. Agradece-me e continua: estás à espera da tua filha? .. estou, digo-lhe, mas ainda falta algum tempo. Ela sorri. Um sorriso que me intrigou. Na sua carita pequena, sardenta de olhos enormes, aquele sorriso envelheceu-a uns dez anos. Às vezes gostava de chegar cá abaixo e ter a minha mãe à minha espera .. fazendo-me engolir em seco. O senhor Isaltino, alma boa e habituada aos desaires desta matemática ingrata de horários versus esquecimentos, lugar para estacionar, esperas e antecipações, intervém de imediato: Sofia, estás com fome? Ao que a pequenita salta da mesa dirigindo-se ao balcão.
Salva .. eu.