20 Apr 2009

intimism (xxxix)

É o mundo de cristal.
Onde tantos se movimentam. Vejo-os passar ao meu lado, todos bem vestidos, barbeados, cabelos arranjados, casacos imaculados, saltos altos sem defeito. Qual bolha de sabão, convenientemente desinfectada, limpa, radiosa, arejada, cheirosa e perfumada. Não me integro, não porque não o saiba, é tão confortável a postura delicada do nada me afecta, sou o máximo mas porque enquanto acreditar, sentir, sonhar, chorar, sorrir, gritar, gargalhar e espernear, não me aceitam por lá. Ainda bem.
É o mundo de cristal. Um mundo onde não espelhas o sentimento que te aflige porque se for riso, és convencida, se for choro vitimizas-te. Abstém-te de sentir. Ou de dar a entender aos outros que sentes. Porque se te queixas é porque alguma fizeste e é merecido. És culpada. Sem julgamento e à partida: Culpada.

É o mundo de cristal. Por vezes, confesso, divirto-me abanando-o. Chocalhando-o. Dando um gritinho que, por agudo, racha a bem estruturada parede brilhante. E observo as baratas tontas que por momentos, ínfimos momentos mas ainda assim, correm de um lado para o outro em cima de saltos agulha em precário equilíbrio. Falam todos atabalhoadamente, tentando justificar o injustificável, até concluírem para seu próprio descanso que tudo não passou de uma singular investida de uma das non-fitted. Nada a temer. O mundo de cristal segue o seu percurso. Imparável. Ao lado do meu onde, felizmente, me dou conta que não estou sozinha. Antes assim.