23 Apr 2009

Livro .. na primeira pessoa do singular

Fui escrito.
Aliás tudo começou quando fui escrito.
Escrito, corrigido, alterado, cortado e acrescentado. Operação difícil, vos garanto. E dolorosa também. Foram muitas as vezes em que me apeteceu intervir. Conversar com o meu autor, explicar-lhe que naquela linha de pensamento ficaria bem um outro cenário, hipótese ou explanação. Mas não o posso fazer. A Obra não influenciará o criador é uma das sonantes alíneas que temos de respeitar logo que somos os escolhidos.
Vejo-o cansado, à luz de um candeeiro que já conheceu melhor dias, tentando que do fio de pensamento tão claro na mente saiam as palavras coerentes e significativas que se propôs relatar. A operação pode demorar apenas uma semana, como oiço dizer aos meus companheiros de prateleira na livraria onde vim parar; mas desses eu desconfio um pouco já que o arrumar de letras pretende-se um processo pensado, amadurecido, logo: demorado, ou pode demorar uma eternidade. De tal forma que a páginas tantas (lá para a centésima terceira) o construtor de letras volta atrás e começa a fazer-me cócegas apagando parte do que havia escrito. Suspiro nestas alturas e concentro-me no tecto.

Pronto.
Estou finalmente pronto. Resta-me aguentar estóico a última intervenção. Olho com surpresa para o local para onde sou atirado, impresso, fotocopiado até me colocarem um espartilho duro e colorido. Capa, oiço dizer. Esta aperta-me particularmente. E assim de relance não me parece que tenha alguma coisa a ver com o que tenho cá dentro. Enfim. Pressas.

Passaram-se alguns anos. Fui lido, manuseado, encadernado de novo, por vezes com papel rafeiro de cor indefinida, outras com papel autocolante que dói horrores quando alguém tenta reencadernar-me. Fui citado, estudado, arrumado na prateleira onde por vezes espirro disfarçadamente por causa do pó acumulado.
Hoje, ligeiramente inclinado, partilhando o espaço com uma orgulhosa vela de enjoativo cheiro a baunilha, sirvo de apoio a outros como eu. Desejoso de voltar ao activo. Porque esperam?