14 Apr 2009

..mar

Arminda, de grande barriga, acorda sobressaltada naquela madrugada. Na cama ao lado da sua, rente ao chão e mais pequena, dorme sossegado o filho de três anos. O António havia já saído para o mar, perto das duas horas talvez, mais coisa menos coisa. Acorda sobressaltada sem perceber porquê e deita as mãos à barriga acariciando-a. Terá sido o bebé? Oxalá esteja bem, pede a Deus.
Arminda lembra a conversa do cego .. o Cego de Maio, ao pedir-lhe no dia anterior: que o teu Toino não saía pela madrugada, Arminda. Diz-lhe de mim que não saia.
O António rira-se ainda que fosse imenso o respeito pelo Maio. O mais valente salvador daquele mar que ruge e se atira contra os homens .. como se os odiasse. Ainda que diariamente os alimente.
Que não saio? Dissera-lhe o marido à leve alusão da conversa havida. E como comemos esta semana se não saio, não me dizes?
Viu-lhe as costas curvadas em esforço e a traineira que entra na onda furiosa que chispa em salpicos brancos e salgados.

Acordam-na os gritos das mulheres na praia. Acorda-a a certeza que algo se passa. Corre descalça pelo areal ainda mal iluminado por uma bruma leve de madrugada anunciada. O estertor do mar é terrível, grandes vagas inundam a areia e fazem oscilar os barcos amarrados. As rochas ao longe estão cobertas pela água em fúria e a luz do farol gira mais depressa na tentativa de alertar os pescadores. Arminda corre descalça, as lágrimas correm pela cara em silêncio, na certeza.
Quase todos, diz-lhe Maio .. trouxe quase todos. Não vi o teu homem. Não consegui ver o teu homem.
Arminda na praia.
Uma mão na barriga, outra no filho pequeno.
De frente para o mar. O mar que a odeia. Que a alimenta. O mar que ela odeia. Que alimenta.



A Póvoa do Varzim é feita de histórias tristes. Mas trouxemos mais. Trouxemos muito. Inclusive a vontade de querer voltar a uma cidade limpa, bem cuidada, com um paredão à beira mar que fez as delícias destas caminhantes. Andámos quilómetros sem dar conta.
A cidade é lisa, plana, sem subidas e descidas. As gentes são simpáticas. Acolhedoras. A gastronomia usa e abusa de um peixe fresco, saudável.
O Museu Cultural e Etnológico em frente à Casa do Mestre faz jus à história da outrora vila pesqueira.

E as Igrejas, religiosamente mantidas, intactas e restauradas, impressionaram-nos.
É preciso um dia inteiro para as visitar. Mas vale a pena.



O Mestre, na Praça do Almada, vela silencioso pelas suas obras semi-submersas mas não esquecidas.

.. a arte é tudo e tudo o mais é nada. A princesa decora a primeira frase e dedica-se a fazer paralelismos com a vida, terminando com a arte de viver mummy? Também querida.


Sorrio para a estátua. Quase posso jurar que me sorriu de volta.