18 May 2009

intimism (xlii)

A princesa em festa de aniversário, tema engraçado, um workshop de culinária infantil, e a mãe a pirar-se para a praia. Um dia de praia sozinha, coisa rara ainda que apetecida. Um tempo suave, sem o calor peganhento e desagradável dos 38º à sombra, e o Barbosa a preparar o último colmo da fila, aquele que sabe eu prefiro, longe da confusão, bem acima da linha do mar. Hoje sozinha, menina? A princesa? Pergunta-me, sem esperar resposta.
Assim que me sentei encostada na cadeira confortável percebi que o meu vizinho do lado era invisual. Não porque estivesse a ler, ou pelos óculos que tinha na cara. Não me perguntem concretamente como lá cheguei de uma mirada. Mas tive a certeza. Peguei no livro, cabeça à sombra, e dediquei-me à delícia que foi a “quezília” entre Eça e Camilo.
Que prosa. Que maneira de escrever o arrufo, a ofensa. Que poder de argumentação. Eça citadino e elaborado, Camilo uma verdadeira força da Natureza. Há homens assim hoje em dia? Tenho as minhas dúvidas. Escritas iguais estou certa que não existem. Por muito copy/paste que se faça com artes mágicas mas sem inspiração.
O meu vizinho levanta-se. Homem já algo grisalho, bem constituído. Em passos firmes, demasiado firmes, dirige-se ao mar. Sem bengala ou qualquer tipo de ajuda, muito direito como se de alguma maneira tivesse há muito decorado o caminho, não só o de ida, mas o que lhe permita regressar ao seu colmo. Coloco o livro de lado e observo-o. À beira mar, um nadador salvador aproxima-se, trocam breves palavras, entram os dois no mar. Comovo-me com a independência demonstrada e, ao mesmo tempo, com o pedido de ajuda expresso. Sem vergonhas. Regressa, acompanhado, com um sorriso nos lábios. Volto à minha leitura sem contudo conseguir concentrar-me. Pouso o livro, acendo um cigarro. De repente interpela-me sem concentração hoje menina? .. reforça o menina num tom gaiato que me elucida ter ouvido o Barbosa. Rio-me e respondo-lhe está demasiado calor. que lê? espantando-me como foi que “viu” que lia. “A Guerrilha Literária” .. é a sua vez de soltar uma gargalhada, o que faz sonoramente, puxando a cadeira para mais perto do som da minha voz. Uma cronista, hein? Quem eu? Uma curiosa, nada mais. E que Guerrilha prefere então? .. silêncio durante dois segundos pesando a pergunta e respondo-lhe a da Vida. Então descreva-ma. Esta, aqui no espaço que ocupamos por acaso.
Sorrio-lhe sabendo que não me vê o sorriso, e surpreendentemente devolve-mo.
Um sorriso franco.
Começo. Descrevo-lhe os garotos dos chapéus coloridos que ali à direita fazem uma corrida com as toalhas presas qual super-homem. O da toalha cor de laranja é o mais rápido, mas parece-me igualmente o mais velho. Vantagem. O senhor do chapéu-de-sol às florinhas, daqueles antigos que me lembram o da minha avó, sacode meticulosamente os calções de banho. É certamente daquelas pessoas que não admite um grão de areia no tapete do carro. Tão meticulosamente que está há mais e vinte minutos naquilo, credo. Rimo-nos. Há um casal que discute. Conseguimos ouvir alguns sons sem que se percebam as palavras. Ela de dedo no ar, qual professora em raspanete, ele a encolher os ombros a cada investida, como se já nada lhe interessasse. A avó de fato de banho preto atarefa-se em redor de um pequeno grupo de crianças. Estimo que sejam todos netos. Tantos? Pergunta-me. Acho que sim. São todos muito parecidos. Sandes e fruta saem ordenados da grande arca frigorífica azul e branca. Uma garrafa de água fresca roda por toda a criançada. Sentados, muito faladores provocam gargalhadas sonoras na avó cujas rugas se contraem.
Há um grupo de jovens que joga à bola na areia molhada, gritos estridentes a cada golo e paragem no ar a cada garota bonita que se atravessa no pedaço de areal que reclamaram. O meu vizinho dá uma gargalhada. Continue, pede-me. Lá ao fundo está um pai que quer à viva força que o rebento tome banho de mar. O menino esperneia e abana a cabeça sem querer avançar. Se o pai se colocasse do tamanho do filho e olhasse as ondas que rebentam em força na areia molhada, aposto que subiria a toda a pressa até ao chapéu.
Você é uma verdadeira contadora de histórias! Interrompe-me. Delicia! .. agradeço-lhe o elogio. Faço uma pausa para um banho. Obrigada, atira-me alto, ao fim de uns passos. De nada, respondo-lhe, bom regresso! De novo, o sorriso franco.
Sabia que já lá não estaria ao regressar do banho.
Agora sim volto a concentrar-me na Guerrilha, esmiuçada que está a que me rodeia.
Um dia de praia sozinha. Coisa rara ainda que confessamente apetecida.