16 Jun 2009

A amizade é uma alma com dois corpos *

A menina é aqui a cronista não é? Pergunta-me a senhora idosa sentada ao meu lado no eléctrico que atravessa Lisboa em direcção a Algés. É, não é? Insiste enquanto lhe sorrio e reparo no jornal que tem ao colo. Uma fotografia que não me faz justiça e as minhas letras assim impressas em papel de cor indefinida com um ar levemente old fashion, o meu sorriso, as minhas letras, eu. Sou sim senhora respondo-lhe mantendo o sorriso ao que me entrega uma caneta e me pede mais baixinho: e dedica-me esta, por favor? .. Dou nova miradela ao jornal, que a senhora alisa de repente algo envergonhada, relembro a crónica, a história, a dor e a ponta de esperança que lanço no final não porque seja verdade, mas porque é preciso. É que .. começa corando ao de leve, rugas profundas agora ligeiramente cor de rosa e uns olhinhos pequenos por detrás das lentes riscadas a humedecer devagar. Toco-lhe na mão, que me aperta, e pego no jornal, escrevendo: a uma amiga que ainda não conheço, assinado o meu nome legível, sem os habituais gatafunhos. Continua a apertar-me a mão e repete baixinho: a uma amiga .. a uma amiga.
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* Aristóteles em Ética a Nicómaco