9 Jun 2009

Aldeia da Minha Vida


Parte do todo em que recentemente me vi envolvida passa também por esta singela participação na blogagem colectiva Aldeias da Minha Vida, um projecto aliciante que tocou aqui no amor a parte das minhas raízes, com um prémio delicioso (acreditem, conheço bem) ;) e o natural enriquecimento que passa por partilhas de memórias e vidas de quem tem a sorte de ter .. uma Aldeia :)

A partir de amanhã e até 28 de Junho, os textos de todos os participantes estarão publicados e sujeitos a votação (através de comentário deixado no respectivo texto). Enviei este, já Vosso conhecido.
Ide .. e votai * ou ide sem votar, mas não deixeis de ir. (gosto desta conjugação, confesso)

Jules Renard afirmou um dia entre tantas outras afirmações, Os projectos são os rascunhos do futuro, uma frase simples que pressupõe algum trabalho, muito empenho e um credo daqui .. até ao infinito. Projectos. Futuro. Simples, não? :)

Neurónios focados de novo.
Até já *
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(Fotografia gentilmente cedida por Pedro Pais)

As vindimas na Beira eram uma aventura como poucas, grandes cestas de vime que ainda hoje sei entrançar, verdes ou negras do sumo da uva colhida, eram colocadas nos carreiros das videiras para que as mulheres, de lenço negro à cabeça e canto cristalino na voz, cumprissem um trabalho que de pesado se fazia leve. Nós, os garotos da cidade misturados sem diferenças com os garotos da terra, amigos até aos dias de hoje, percorríamos as veredas em equilíbrio tentando ganhar a corrida do cacho mais gordo ou da uva mais doce. Acreditávamos que ajudávamos à lide, sei hoje que atrapalhávamos mais que qualquer outra coisa, ainda escuto as gargalhadas do mulherio trabalhador quando ostentávamos um ar orgulhoso por termos conseguido arrastar um cesto cheio até ao reboque do tractor que subiria até ao lagar. O lagar, com um cheiro adocicado e enjoativo, fazia as delícias da pequenada, aguardávamos na chamada fila indiana que nos deixassem rodar a manivela responsável pela primeira espremidela às uvas que eram atiradas dentro. Manivela responsável por uma ferida feia no nariz quando achei que conseguia, ainda de pouca altura, acompanhar-lhe o impulso. Ao fim do dia homens, mulheres e crianças de calças arregaçadas, abraçados e cantando os cantares da terra, pisavam a uva, sem parar. As unhas vermelhas e as pernas salpicadas de vinho. Gargalhadas noite dentro por cada desistência, nós, os pequenos, os primeiros a desistir, cansados do sono e dos vapores nauseados.
Era um outro Setembro. Feito de pão casqueiro e fatia de queijo de cabra com casca, feito de figos e dióspiros em quantidades abissais, da apanha da castanha e da seara dourada e colhida, a aguardar na eira o descasque da espiga. Feito de levantares madrugadores ao relinchar da minha égua, a Estrela, que me acordava cedo na certeza do passeio. Era um Setembro de camisola já vestida por essa altura, calça curta e pé descalço, para apreensão da Mãe que nos inspeccionava no banho à procura da carracita do campo ou de algum lanho feio e a precisar de desinfectante.
Era o juntar da lenha que aqueceria o cacau escuro e a água do banho quando regressássemos todos em Dezembro, toros enormes que crepitariam no lar franco e bem estruturado de uma lareira que era o orgulho do Pai. “Nem uma réstia de fumo dentro de casa! Aprendam, meninos, aprendam!”
Setembro, que não queríamos acabasse, mesmo desejosos que pudéssemos estar na viagem de regresso à cidade para voltar à escola, aos amigos, ao “que fizeste nas férias?” certos de tanta aventura para contar. De outra tanta para ouvir.

Era o meu Setembro, há anos largos, quando ainda criança, quando ainda adolescente.
O meu Setembro em Monsanto, aldeia tão portuguesa, Aldeia mais Portuguesa.