6 Jul 2009

Há uma certa vergonha em sermos felizes perante certas misérias
Jean de la Bruyère
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Tens de arranjar alguém que te faça isso!, atira-me esta amiga a quem tudo se permite, ao ver-me dedicada, num sábado à tarde, à pilha de roupa para passar a ferro, de sorriso nos lábios.
Credo! Era lá capaz de passar horas aí! continua, a franzir sobrolho, olhando-me qual peça de raridade exposta em prateleira bafienta, enquanto abre a portada da janela da cozinha e acende um cigarro. Sorrio interiormente enquanto dobro com paciência e sem vincos as t-shirts da princesa. Avesso, direito, vira, roda passa, não vinca, mangas para dentro, etiqueta direita. Já está. Continuo com peças maiores e outras mais pequenas, ela de olhos fitos nas minhas mãos, para lá das minhas mãos, da tábua e do ferro, aposto até que para lá da minha cozinha. Bate o tacão no chão e esmaga furiosamente o cigarro no cinzeiro. Olho-a serena. Sei que algo a atormenta. Deixo que me conte o que é.
A princesa toca à porta aberta com os nós dos dedos, ela sorri-lhe em silêncio, abre a porta do frigorifico, iogurte de cereais e prato com pão e queijo, beijo de fugida no braço da mãe, sorrio de novo, bate a porta do frigorifico e a garota corre para atender o telemóvel. Abana o papel, um dos vários papeis presos com ímans na porta do frigorífico, uns com recados, outros com contas, mas abana agora o papel branco rabiscado pela princesa, no vento que entra pela janela e levanta a cinza do cigarro acabado de apagar. I love you mummy, diz o papel ao vento, I love you more than a trillion, gritam as letras coloridas em brincadeira de menina pequena quando ainda mal falava e respondia ao how much? com um duzentos e mil. Rolam cara abaixo duas lágrimas grossas. Chora a minha amiga, empoleirada nos seus saltos de 20cm, outro cigarro em punho, cabelo irrepreensível, maquilhagem sem mancha. Fixa o papel para além do papel e murmura baixinho era lá capaz e no entanto às vezes penso que é tudo o que quero.