21 Jul 2009

interpretações (iv)

Woman Reading - Henry Matisse - 1894
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De costas. Sossegada, finge ler. Atenta, contudo, aos ruídos que a cercam.
A Isidora, peixeira na rua que apregoa, como ela gostaria de ter sido uma delas! Sempre livre, rua fora, pé descalço, canastra à cabeça e pregão na voz. O Marcelino carpinteiro que enche o ar quente da manhã com batidas nos pedaços toscos de madeira que em breve serão mesas, cadeiras, colheres de pau e enxadas. Sim enxadas que ainda há quem, nas traseiras dos pequenos prédios colados que quase não respiram, tenha a sua horta de alfaces vivas e tomates vermelhos. Ela bem os ouve em outro pregão nas vendas ao sábado de manhã na esquina que dá para o rio.
Os cantares de um rádio roufenho que passa fado, a voz do fado que tudo silencia, que nos traduz a saudade e nos transporta, interrompe-lhe o pensamento.
Vem em ondas de som a conversa das vizinhas que estendem a roupa a meias, partilhando o estendal, comentando quem passa e quem falta passar. A garotada atrás de um papagaio de papel que nunca viu mas que adivinha colorido, cheio de fitas brilhante e pedaços de tecido cozidos uns aos outros, pela Ermelinda, costureira do bairro que de janela aberta perde por vezes as linhas e bainhas no vento que se levanta. O som dos garotos a rir e a gritar coloca-lhe um sorriso nos lábios e faz bater mais forte o coração. Quem lhe dera ser de novo criança, correr sem rumo e horário, o sol e o céu por limite à aventura.
No silêncio da sua pequena assoalhada todos os sons têm a forma que lhe quiser dar. O relógio de pêndulo, herança de um bisavô que não conheceu, leva o tempo arrastado nos ponteiros, tempo que oprime, certeza de dias iguais, sempre iguais enquanto de costas finge ler.
Finge viver.
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A Imagem aqui roubada, ainda que em pré aviso ;) Obrigada Miguel.
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