7 Jul 2009


Ninguém pode pronunciar-se acerca da sua coragem quando nunca esteve em perigo
François La Rochefoucauld
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Leio sobre a debandada. Maria João Pires, sensível e maravilhosa pianista, um dos ídolos da princesa lá de casa .. Miguel Sousa Tavares, polémico q.b. ou acima disso mas de quem me confesso admiradora da palavra escrita .. comecei com David Crockett .. sou-lhe fiel em todas as publicações até ao momento, ainda que discordando, ainda que concordando. Saramago .. Nobel da Literatura com responsabilidades maiores pelo prémio .. que não cabem no prémio.
Leio sobre a debandada de pessoas que têm algo a dizer sobre o País onde vivem, onde trabalham, onde era suposto serem felizes com o que têm que é tanto mais que tantos têm.
Foco-me na realidade que me rodeia.
Aposto que Dª Ernestina do pequeno atelier de costura, hoje às moscas, na esquina da rua onde moro, gostaria de poder partir deste País que não a ajuda a sustentar os três filhos que tem em idade escolar. Ainda no outro dia, em conversa na fila da padaria me confidenciava que não sabia como iria manter os três na escola no ano que em breve começa. E por falar em padaria, a Dª Amélia, padeira de sempre, amiga da Minha Avó, senhora que atravessou uma guerra, o fim do regime e tantas outras ondulações perigosas e quase fatais, me dizia também, metendo a colherada na conversa, que parecia impossível como até do pão as gentes tinham de desistir. Ficou-me a frase desistir do pão; já acabou com a fornada de croissants estaladiços às 18h porque ninguém compra. As encomendas de sortido, areias e lagartos de manteiga, caíram para metade do que toda a vida vendeu, e deixou de ter fiambre e queijo e chourição, que os garotos da escola já nem lá entram a pedir o lanche reforçado de antigamente. devia ter ido embora quando ainda tinha idade rematava de sorriso triste por debaixo do lenço branco imaculado que lhe esconde os cabelos igualmente brancos. Da vida.
A televisão fala do número de desempregados o que até há pouco tempo me parecia uma realidade lateral à minha; até os meus amigos começarem a perder empregos sem conseguirem arranjar outros em troca. A princesa lá de casa chegou, na última semana de aulas, com duas notícias tristes: duas das colegas não vão para o liceu. Vão sair de Lisboa com os Pais. Estão desempregados e não têm como pagar as casas, rematava a miúda com olhos de drama.
Aposto que também estes gostariam não de sair de Lisboa, mas do País em busca das promessas de vidas melhores.
Leio a debandada.
E foco-me na minha realidade que ultrapassa em drama qualquer queixa, qualquer achaque ou querela, qualquer desânimo que os que agora viram as costas a Portugal possam estar a sentir.
E estes, os anónimos, continuam por cá a tentar. E a acreditar.
Era bom que alguém lhes desse tempo de antena. Estou certa que teriam algo a dizer. Também.