4 Aug 2009

interpretações (v)

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Vivia ali eu.
No terceiro andar a contar vindo do céu.
E por falar em céu, estava azul e brilhante neste dia em que ninguém adivinhava o que iria acontecer. Acordámos, eu e os meus seis irmãos na assoalhada que partilhamos. Partilhávamos. A casa era pequena demais para tanta gente mas a mãe sempre nos disse que um dia, dentro de pouco tempo, nos mudaríamos. Naquele dia acordámos e dividimos o pequeno-almoço como sempre. Um litro de leite dividido por todos e meia carcaça com manteiga para cada um. A mãe entre o fogão a preparar o almoço que havia de deixar no forno embrulhado em papel de jornal, e o arrumar das camas dividia o tempo em brincadeiras connosco e puxões de orelhas a fingir que ralhava. Amava a minha mãe, eu. Amo a minha mãe ainda que a senhora simpática que me trouxe para aqui me tenha dito probrezinha, pobrezinha enquanto me fazia festas no cabelo. Cabelo que tenho sujo e cheio de pó e terra.
O dia tinha amanhecido bonito, sabíamos que teríamos de ficar sozinhos, todos, como sempre, que a mãe tem de trabalhar, mas havia prometido que chegaria mais cedo e como era dia de receber o ordenado tínhamos o gelado do mês para escolher. É sempre um dia importante este. Não podemos comprar brinquedos ou roupa ou outra coisa que não seja comida. Mas sabemos que um dia poderemos. A mãe sempre disse que esta situação não era para sempre e aos olhos das crianças a palavra sempre não quer dizer nada portanto, acreditávamos piamente que um dia, não muito longe deste dia que havia amanhecido de calor e céu azul, nos mudaríamos todos para uma grande casa e teríamos gelados de baunilha todos os dias. Porque se as coisas são para mudar que mudem de forma a que se perceba, dizia sempre o senhor do talho onde a mãe se abastecia ao dia 20, de meia dúzia de peças de carne que, por artes mágicas, sempre acreditei que a minha mãe era mágica, chegavam para o mês inteiro.
Estava azul, de céu limpo, este dia.
O dia em que alguém escolheu estragar-nos o gelado de baunilha que nos povoa os sonhos em todos os outros. Poderiam ter escolhido outro dia? Aquele em que saímos todos para o banho nos balneários públicos logo de manhã por exemplo? Ou o outro em que os meus irmãos adoeceram e passámos a noite em camas confortáveis no hospital da cidade? Porque é que tinham de escolher este dia? Porque é que tinham de nos estragar assim o dia? Ganharam alguma coisa com isso sem ser os olhos chorosos que vejo à minha volta e esta sensação que tenho de não estar a perceber como é que vai ser a minha vida a partir de agora? Ganharam?