6 Aug 2009

Recostadas na esplanada, conversamos. Tenho por esta minha amiga uma estima fraternal. Conhecemo-nos há tantos anos que nos abstemos de fazer contas. Mãe de duas crianças, uma das quais uma das melhores amigas da princesa, a outra, ainda pirralha com ares de menina crescida a querer acompanhar as mais velhas e fazendo-nos sorrir. Têm sempre pressa em crescer.
As garotas brincam na areia e nós temos um tempo para por a conversa em dia.
Porquê? pergunto-lhe, parecia boa pessoa ele, amável, verbalizo enquanto recordo a figura do seu último companheiro. O relacionamento durava há alguns meses, poucos, quando me telefona a dizer que tinha acabado.
Porquê? Perguntei-lhe nesta tarde de sol, amena e agradável, sumos de laranja à frente e as crianças felizes a brincar na areia. Semicerro os olhos tentando fixar o brilho do sol no brilho da água e desisto. Encaro-a, corou ligeiramente à minha pergunta.
Que se passa? Voltei a perguntar, virando-me para ela e sentando-me na cadeira.
Fazes sempre isso quando te queres concentrar, ri-se.
O quê?
Sentas-te mais direita!
Desbobinas s.f.f.? O que soube a seguir começou por me arrepiar, para rapidamente perceber que é de facto estranho o mundo em que vivemos. À primeira alusão sobre o timbre de voz de uma das primas, com apenas 16 anos, ela desconsiderou e achou que estaria a brincar, ficando contudo com uma pontada desconfortável pela brejeirice do comentário. À segunda insinuação que a filha mais velha era muito sexy, ela decidiu num ápice que não era um homem assim que queria ao seu lado. Não explorei aquele assim. Não me pareceu necessário para perceber que há tanta coisa invertida neste mundo que mais tarde ou mais cedo nos bate também à porta. Vale-nos o discernimento e alguém um dia ter perdido tempo a ensinar-nos.
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Ficámos as duas em silêncio, ouvindo o gargalhar que nos chegava do areal e aproveitando aquele sol de fim de dia.
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Portugal tem o mais lindo sol de fim de dia que conheço.
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