10 Sep 2009

Após este magnífico e profundo texto da Margarida a quem há muito baptizei meigamente de Meggie – diminutivo que pertence à família, primeiro à minha mãe, hoje à minha mais recente sobrinha que a propósito vai fazer um ano dentro de dias, vocês acreditam? :) fiquei a pensar na diferença que ela brilhantemente aponta entre o ser e o estar, e no oposto a tudo isto que é o ser feliz ou estar feliz, ideia que já vi explicada por teclados alheios mas que me pertence e até posso dizer quando e em que contexto a expliquei.

Tenho para mim a teoria que a felicidade essa palavra enorme que pouco cabe na boca e sentimentos de gentes que se afadigam a cumpri-la, é um puzzle.
Assim sem mais nem menos, um puzzle de inúmeras peças que leva qualquer coisa como uma vida a construir. Por vezes encaixamos uma peça num local a que julgamos pertence para mais tarde nos darmos conta que sobra espaço ou que lhe falta o à-vontade para estar, sem roçar os cantos, num espaço curto demais para que se sinta respirar. Levamos a eternidade que nos é permitida a mudá-las de local, encaixa mais à frente, procura o azul que combine com este laranja, ou simplesmente deixa-a estar por aí mais uns tempos que já cá volto.
Aqueles a quem o puzzle tem de aparecer completo, direito, com coerência e de preferência emoldurado e pendurado na parede da sala de visitas à vista de todos, são os mesmos que dificilmente pronunciarão com propriedade a frase: estou feliz, sinto-me feliz, sou feliz. Sem grandes explicações. Apenas porque sim.
Porque o sol brilha, porque a minha filha sorri e é saudável, porque o carro pegou depois de uma noite de chuva, porque havia no supermercado tudo o que preciso e tinha na carteira dinheiro para pagar, porque o cozinhado saiu bem, porque os amigos chegaram a horas, e aqueles que não chegaram trouxeram flores para me verem sorrir fingindo-me zangada, porque a família é saudável, porque o chefe disse bom dia, sinal que tenho chefe e acima de tudo sinal que tenho trabalho, porque a chuva esperada finalmente apareceu, e já vejo em alguns galhos as folhas a amarelar, quase, quase a cair, porque a padeira continua a entregar o pão fresco e estaladiço todas as manhãs, porque acordo cedo ou porque me deixo dormir na preguiça inimputável, porque uso aquele vestido que me fica um must ou calço os ténis ao final do dia para a caminhada à beira rio, sagrada, diária e que nos sabe tão bem.
Porque sim.
Um porque sim feito de pequenas peças, minúsculas por vezes, que encaixo todos os dias no local a que sinto, penso e acredito .. pertencem.
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