7 Sep 2009

Aproveitei o período de férias para mais uma incursão pelo passado. Quem me lê aqui e me conhece lá fora sabe a minha predilecção pelo que já foi, aconteceu, alguém escreveu, alguém viveu. Encontrei por mero acaso o primeiro livro de receitas da senhora Minha Avó. Uma cozinheira de mão cheia e uma doceira das melhores, como já tive oportunidade de ir relatando por aqui que, não sendo portuguesa, cedo se inteirou do que se fazia por cá e como, imitando e repetindo receitas que lhe granjearam prémios na verdadeira cozinha tradicional portuguesa, e pondo em prática tantas outras de sua autoria para gaúdio de todos quantos eram convidados à sua mesa, sempre cheia.
Convivi durante anos, que hoje me parecem sempre poucos, com panelas a fumegar num fogão que mal as comportava e fornos ligeiramente abertos para que os bolos não minguassem. Aprendi segredos e pequenos saberes e sabores que fazem toda a diferença quando os utilizamos. Descasquei, debulhei, espremi, bati e misturei ingredientes enquanto ouvia a voz cadenciada da minha avó que explicava, como quem nunca se cansa de explicar, o como e o porquê. O quando e o quanto. O peso, a medida, a forma. Parte desta aprendizagem fi-la praticando mas outra, tanta outra perdeu-se ao longo dos anos na minha memória entretanto cheia de outros sentires, de outros ensinamentos. Encontrar o primeiro livro de receitas da minha avó escrito a tinta permanente, e datado de 1943, começou por me fazer corar – a sério, corei tanto que sentia a cara a escaldar, para logo a seguir perder completamente a noção de tempo. Eram 21h quando a minha filha entrou na cozinha arrastada pelos primos a gritar de fome numa palhaçada própria de crianças pequenas! eu sentada no chão, pernas à chinês, não sei ainda hoje durante quantas horas, devorei aquele manual diário com todas as anotações, todas as receitas, a propósito de tudo, dicas sobre todos os ingredientes, folhas já amareladas, pautadas por uma escrita azul, serena, corrida. Igual à minha dizem para me verem sorrir.
Partilharei convosco, não as receitas que herdámos (a minha mãe, tios e tias, irmãos e irmãs, matar-me-iam se o soubessem) ;) mas os sabiam que? com os quais a minha Avó encheu páginas e páginas que me encantam. Espero que os aproveitem e se divirtam a experimentar ;)

Dica I
Vocês sabiam que
para conservar sal sêco no saleiro, se cobre o fundo deste com papel mata-borrão?