4 Sep 2009


A igreja estava vazia.
O calor insuportável da rua, num ar denso e pesado próprio do mês de Agosto, contrastava com o fresco, quase arrepiante, daquela sala de pedra, com bancos de pau devidamente alinhados e a figura da Virgem ao cimo do altar. Um altar branco, imaculado, sem flores nem ornamentações. Simples. Corrido e comprido, tapado com uma toalha que supus de linho alvo, sem enfeites ou rendas. Fiquei parada não sei quanto tempo. Os meus olhos presos nos olhos da Mãe dos homens. O ar ligeiramente sofredor, ligeiramente esperançoso, um meio sorriso a despontar numa cara de porcelana, sem emoção. Uma mão levemente erguida a outra segurando um bebé que dificilmente terá sido Cristo o Redentor. O Sofredor.
Sempre me intrigaram as explicações que me deram quando criança para as imagens que pontuam nas nossas igrejas católicas. A serenidade apresentada como que uma benesse de conformismo perante o mal que se adivinha e se sabe os homens fizeram, fazem, e continuarão a fazer.
Sorri aquela mãe perante todos quantos partilham o seu espaço, em pedidos e orações e quiçá não atende ainda algumas delas. Sorri aquela mãe de porcelana com o seu filho bebé nos braços numa altura em que sabe, porque as mães sabem sempre, que lho vão tirar. Que lho vão matar.
Ergue a mão numa saudação ao carrasco.
Num adeus ao criminoso.
Miseráveis os homens que nada aprendem com quem está disposto a dar a vida .. por eles. Abençoada a mãe que tudo sabendo consegue continuar assim: impávida, serena, sorrindo, saudando.

A religião é, por vezes, para mim um verdadeiro enigma.
Já a fé, a minha Fé, é totalmente inabalável.