15 Oct 2009

Blog Action Day 2009

A iniciativa não é minha.
É destes senhores, esforçados e preocupados que assim a toque de um click e alguma imaginação nos arrastam a consciência em frases como are you as caring as we think you are?
I am. So .. here it goes :)
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Carta de um Futuro que podemos evitar. E devemos.
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Sonho cada vez mais com elas.
As bolas de sabão que a minha tataravó Catarina descreve nos imensos cadernos que deixou escritos, tantos, dizia a minha avó, que lhes perdera a conta. Hoje tenho um comigo. Apenas um forrado a um tecido resistente que não sei como se chama de uma cor que não sei explicar. Leio vezes sem conta registos simples e cheios de sentimento do que foi a vida do antes. E antes de quê, perguntam-me aqueles que espero um dia me possam ler. Antes de o homem ter decidido assumir-se como controlador de uma natureza que existiu muito antes dele e continua a existir independente da nossa vontade. Hoje, contra a nossa vontade. E de a ter maltratado, ignorado, usurpado. Ignorado. Tal como hoje ela faz connosco. Os que sobreviveram.
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Não me vou alongar em juízos.
A folha de papel que tenho nas mãos é algo único por aqui e muito pequena. E o lápis não mais que um toco com que me esforço por deixar registo. Tenho 30 anos. A minha pele é seca e sulcada, e o meu peso não deve chegar aos 40 kg. Não há comida em parte alguma do planeta e o que foram biliões e biliões de habitantes são hoje pouco mais de milhares, concentrados a sul de um globo, cansado e deformado, dado que a parte norte está totalmente congelada e inacessível. Não temos como nos aventurar na procura do bem inestimável: a água. O que não deixa de encerrar alguma ironia. Hoje em dia quase ninguém sabe o que é um rio e acho que mar é palavra totalmente desconhecida, mas dizia eu, a água é um bem mais precioso que as 120kal por dia que comiam os refugiados em campos protegidos no tempo da minha tataravó (li isto num dos textos dela, e desejei com todas as minhas forças ser um deles).
As pessoas que me rodeiam (vivo numa comunidade de cerca de 300 indivíduos) arrastam-se, esgravatam a terra com as unhas, negoceiam a vida dos filhos que vão conseguindo ter, na maioria crianças desfiguradas e com minúsculas hipóteses de sobrevivência, e dos poucos animais resistentes, porque fruto de mutações horríveis que os tornam assustadores, indomesticáveis e intragáveis, em troca de uma palmeda (massa confeccionada com barro lodoso e pequenas bagas que suponho venenosas dadas as reacções que provocam), algo parecido com o pão de antigamente, acredito.
A maioria das mulheres são estéreis e a esperança de vida ronda os 45 anos, os homens morrem invariavelmente mais cedo, vergados ao peso dos ossos que não conseguem revestir, sem esperança nos olhos baços.
Penso que dentro de uns dez anos não haja ninguém nesta nossa comunidade. Não estamos em contacto com as restantes que sabemos existem. Não temos forças para percorrer os quilómetros imensos que nos separam, mas acredito que a situação é esta por todo o lado. É confuso viver com um limite tão imposto mas se vos confessar que na maioria dos dias preferia desaparecer, não estou a exagerar.

Tudo começou numa altura em que aos avisos sobre a modificação da natureza, sobre aquecimento e o degelo, os homens responderam com ignorância e intelectualidades do género desde que me lembro que há muito frio e muito calor ou isto da alteração climatérica é mais um tacho para elites, etc e tal (vale-me o caderno que herdei para perceber o que realmente se passou porque a maioria acredita que se tratou de um ataque nuclear em 2075).
Gostava que um deles fosse ainda vivo hoje para perceber até que ponto tal negligência, quase criminosa, influenciou o seu futuro. O nosso presente.
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O meu único consolo? Conseguir ler e escrever (sou das poucas, posso garantir e valeu-me uma mãe apaixonada pela letra escrita em barro ou no caminho poeirento, que trauteava canções enquanto percorria os 50km que nos separavam da busca por melhores condições quase todas as semanas) numa altura em que a maioria da população não consegue verbalizar uma palavra simplesmente porque não se consegue levantar da condição de animal rastejante para onde nos atiraram as gerações que nos antecederam.
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Sonho cada vez mais com elas.
Bolas de sabão coloridas, a brilhar ao sol, coisa que hoje não existe (encontrei no meio do caderno, várias fotografias coladas, algumas em locais que me ferem a vista de tão inacessíveis.)

A penumbra envolve o planeta como se estivesse sempre quase a escurecer. Uma coisa é certa: ninguém tem medo do escuro por aqui e às horas tardias é quando conseguimos reparar um telhado de troncos ou partir em busca de terra ainda não esgravatada na tentativa de encontrar um fio de água. Quando tal acontece mastigamos aquela terra húmida durante horas. E digo-vos que é um dia melhor, esse. Durante a maior parte do tempo a temperatura é altíssima, insuportável, ou então gelada de cortar a respiração e provocar morte quase instantânea.

Teria sido simples deixarem-nos ver o sol, sabem?
Bastaria terem acreditado.

Terem agido. Terem respeitado. Terem investido.
Se toda a nossa vontade em sobreviver, por mais um dia, pudesse alterar o passado.

Se.

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