13 Oct 2009

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Mummy, chama a princesa meigamente, tocando ao de leve com dois dedos no caderno que acabei de forrar a amarelo. O tecido é um brocado antigo tingido, com laivos de laranja e de tempo, do tempo que passou fechado no baú dos atoalhados, convivendo em perfeita sintonia com a toalha do meu baptismo, bordada com as minhas inicias pela avó paterna, e com o véu, já algo amarelado do meu casamento. Mummy? Interroga-me olhando a obra, orgulhosa, folheando este novo caderno feito de velho, ainda sem letras, linhas aprumadas e direitas, vantagem da tipografia, sem emendas, rasuras, anotações laterais ou marcas de folhas dobradas, maltratadas. Gostas, pergunto-lhe, vendo-a sorrir, ao que responde, muito, ficou perfeito mamã, só lhe falta uma coisa, menciona de sobrolho alçado e os grandes olhos castanhos em sorriso aberto. Ai falta returco achando que se refere à data, há sempre uma data nos meus cadernos, a data em que os inicio nunca sabendo quando os vou terminar. Falta sim senhora, assegura-me já meio a brincar, encavalitada na cadeira da mesa da sala e com o caderno ao colo, acariciando a capa que me parece ver de um amarelo mais vivo agora perdendo aos poucos a tristeza do antigo. Do abandono.
Falta o conteúdo mamã, remata airosa a princesa pioneira de um reino sem rei. Falta o conteúdo, repete, abrindo-o ao meio e entregando-mo assim aberto, as mesmas linhas direitas ainda sem nada, na certeza que em breve, ali lerá. Em breve.
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