7 Oct 2009

under no circumstances

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Estás a ir embora não estás?
Eu sinto. Sinto a tua ausência ainda que presente, o ar alheado a falta de entusiasmo. Sinto a necessidade de te interpelar de três em três minutos ainda que só raramente, muito raramente, receba um aceno de cabeça sinal que me ouviste. Será que me ouviste? A forma como lês distraidamente o jornal de manhã já não é a forma como lias distraidamente o jornal de manhã, comentavas as notícias, pedindo a minha opinião, ouvindo interessado as minhas extrapolações e rindo da minha utopia. Era interessada a forma como o fazias parecendo interessado? As crianças já não te encantam, estás sempre de saída apressado e sem paciência, os programas são cancelados e adiados e já nem te esforças por pedir desculpa. Eram sentidas as desculpas que davas antigamente? Ou eram meras invenções de uma mente que está sempre longe demais, insatisfeita, inacessível?
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Estás a ir embora não estás?
Eu vejo, eu sinto, falas em sinais, tu que gostas de dan brown escritor que não consigo ler, lembras-te da discussão que tivemos depois de me teres obrigado a ler o livro dele, lembras-te como te espantaste com as minhas conclusões e interpretações, lembro-me de quando me disseste que tinhas sorte por poder partilhar a vida com uma mulher como eu. E agora? Em jogo de roleta cega saiu-te outra? Mais inteligente, mais formosa, mais velha, mais nova? Que procuras afinal que assim que encontras, abandonas, pergunto-me em noites que ainda te espero. Que ainda espero.
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Estás a ir embora não estás?
E eu, quase certa nas conclusões que vou tirando de tudo o que não dizes, de tudo o que não explicas, acabo por acreditar nelas simplesmente porque tu não me dizes outra coisa que não seja o silêncio. E o silêncio pesa mas é fecundo, cheio de palavras e de intenções, imagens e sentires. Ou ausência deles.
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Estás a ir embora, não estás?
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