4 Nov 2009

_
Há uma imperceptível diferença entre sair de casa com o pequeno-almoço tomado e sem nada na barriga. É ténue a fronteira que separa a comodidade a que estamos habituados desta ideia peregrina que a mesma é garantida.
Não questionamos, nem perdemos dois segundos a pensar na sorte que temos.
Nem nunca por nunca achamos que algum dia estaremos do outro lado do muro.
Mas podemos ir lá parar. Tão subtilmente quanto.

É fértil em iniciativas a época que se avizinha. Época de hipocrisia como gostam de apelidar aqueles que pouco fazem durante o ano inteiro e estarrecidos com a capacidade de ajuda de alguns que podem até menos que eles, num tão a propósito sentido desdém bem lusitano, amofinam, criticam, encontram mil e um defeitos e levantam centenas de suspeições em cima de quem age, de quem tenta fazer a diferença entre fazer muito pouco porque muito pouco se pode e não fazer rigorosamente nada.
É pena. Mas envolvida que estou ao longo do ano inteiro em pequenas iniciativas que primam por essa linha ténue, por essa ajuda imperceptível, por esse conforto que não tem preço, não se vende na farmácia nem tão-pouco aparece nas notícias, já estou vacinada contra a untuosa sonsice que vejo grassar em alguns nichos de gente de bem.
Há anos em conversa com um amigo muito amigo que já muito viu por esse mundo fora argumentava eu, estupidamente, o mesmo género de argumentos que ouvia papaguear à minha volta. Lembro-me do ar sereno e do meio sorriso triste com que me respondeu: se de tudo o que se fizer, de todo o dinheiro que se gastar, de todas as mercadorias, bens alimentares e outros que se enviarem conseguirmos salvar uma única vida, já tudo valeu a pena.
Lembro-me de ter ficado em silêncio. Uma única vida. Que a nós nos parece dado adquirido sem direito a devolução ou pagamento de renda.

É fértil em iniciativas a época que se aproxima.
Quem sabe não conseguiremos mais que uma vida este ano.
_