3 Nov 2009

Mãe .. Mulheres, Mães.

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Vejo-as todas as manhãs. Chego fresca e cheirosa, em salto alto ou em salto nenhum, estaciono no meu lugar usufruindo da comodidade de uma garagem e de outra mais importante, a de ter um carro que percorra por mim o caminho que separa a escola da minha filha do meu emprego e vice-versa. Chego normalmente a horas não partilhadas pelos meus colegas de estacionamento e vejo-as todas as manhãs.
De bata azul, chinelos nos pés, cabelo amarrado, baldes, esfregões, vassouras e panos, descem a rampa até aos lavabos onde, àquela hora matutina e após lavarem, esfregarem e desinfectarem o local que me espera para oito horas de trabalho, mudam de roupa e seguem o dia que para elas tem mais horas do que para mim. Horas de trabalho. São alegres e bem-dispostas, cumprimentam-me em coro quando me avistam, algumas são estrangeiras e não lhes sei o nome, outras, caras já minhas conhecidas, que me perguntam timidamente pela princesa cuja fotografia junto ao meu computador, lhes é familiar. O dia que para mim começa com um café duplo e a fumegar e a leitura de correios electrónicos com que me brindam os que comigo trabalham em diferentes fusos horários, sentada confortável numa cadeira de rodinhas, para elas segue já com o peso de algumas horas de afazeres que começaram quando me levantei. Ou se calhar antes disso.
São mulheres e mães como eu. E na vida certamente tomaram tantas e tão boas decisões como as que acho já tomei. Os filhos também as esperam em casa ao fim de um dia em que provavelmente chegam mais cansadas, sem tanta paciência, ou talvez não.
São vidas que correm paralelas à minha, tão perto quanto um sorriso de bom-dia faz a diferença, e no entanto tão longe da realidade que me envolve. Mulheres que limpam, lavam, esfregam e desinfectam enquanto eu escrevo, traduzo, analiso, preencho e opino, num trabalho que normalmente nem se vê, nem se dá conta que existe e que alguém o faz.
À custa de noites interrompidas e de madrugadas passadas nos transportes públicos.
À custa de horas sobre horas que a elas lhes sobram em trabalho não tão agradável. Definitivamente não tão aconchegado.

De que me queixo eu, afinal?
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