1 Jun 2010

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Porque há ciclos que se fecham.
Mesmo.
Tenho um amigo, que admiro, que me costuma dizer que abre e fecha um ciclo de dez em dez anos. A ser verdade vou quase quase a meio do quarto ;) .. virei mais um ano há uns dias e entrei na graciosa capicua dos quarenta.
Sinto-me bem. Estou bem. E acima de tudo algo diferente. Com mais trabalhos, outras actividades, oportunidades que não pensei existirem mas como escrevi há tanto tempo, que seria de mim sem os meus projectos? os que procuro e os que me encontram, me desafiam e me piscam o olho. E tendo mudado algo nos últimos anos há coisas que não mudam: a resposta a desafios é uma delas.
Desta vez acho que é de vez. Manter por manter, escrever parvoíces para cumprir o índice e as visitas, rebuscar textos antigos e escritos sob outra realidade, ou inventar de grande tudo o que se quer e não se tem, não é para mim. Sei muito pouco ser outro alguém que não eu própria.
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Outro alguém que prezo (bastante, agora que penso nisso;) acusa-me de ser demasiado intensa, apressando-se a continuar que não é negativa a avaliação, muito pelo contrário. Talvez por isso, por sentir e fazer tudo o que me dá realmente prazer de forma intensa, tenha optado por deixar este meu espaço.
A veia intimista reservo-a agora à minha verdadeira e preenchida intimidade.
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Porque há ciclos que se fecham.
E este encerra quatro anos de escrita, partilha, alguma dor, muitas alegrias, conquistas maiores que o verbo, vivências diaristas, muitos comentários, e uma verdadeira amizade que nasceu aqui mas que levarei comigo para lá dos limites deste meu diário.
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Obrigada por isso *

7 May 2010

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.. sentada na calçada como que abandonada. Ao lado, um cartão mal escrito com uma história inverosímil ainda que verdadeira. O cabelo desgrenhado, sujo e pejado de bichos cai pelas costas outrora certamente direitas. Nos olhos não há luz. Nem esperança. Apenas a triste nuvem que deixam os sonhos que abandonamos cedo demais. Uma nuvem cinzenta, da cor do céu do Inverno.
Profere uma ladainha baixinho, numa voz meiga e velada que passa despercebida na loucura da hora de ponta da nossa cidade. Pessoas como formigas demasiado ocupadas. Sempre ocupadas. É uma música, reconheço, e até lhe sei a letra. Fala do mundo, e das pessoas no mundo. Fala de responsabilidade e de amor ao próximo. E aquela melodia nos lábios de quem já pouco espera soa a grito de socorro. Pedido de ajuda disfarçado nos saltos altos que martelam a calçada onde se senta. Como que abandonada.
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4 May 2010

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A verdade primeiro ama-se, depois demonstra-se
Vergílio Ferreira

29 Apr 2010

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.. são os tempos de crise, repetem os garotos, ops, pré-adolescentes com direito a ir para a cama depois das 21h30, s.f.f., ;) de doze anos, sentados na mesa da sala, a elaborar um trabalho para a disciplina de projecto. Cortam, consultam, imprimem, resumem, procuram, comentam, opinam.
É a crise! atira o miúdo dos caracóis e cara de reguila (deves ser fresco, pensei imediatamente assim que o vi entrar), e continua: pelo menos é o que o meu Pai está sempre a dizer.
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.. convivem com a crise os nossos filhos.
Na vida do dia-a-dia, na escola, em trabalhos de pesquisa. Estão mais alerta, mais informados, mais atentos aos sinais, e conseguem enumerar, assim de repente, meia dúzia de medidas para poupar. Poupar água, poupar energia, poupar dinheiro.
Sorrio, na cozinha, enquanto lhes preparo um lanche, .. estão muito melhor preparados do que nós. Estão mais expostos é certo. Talvez não tão protegidos a assuntos que no meu tempo ninguém conversava com as crianças, ninguém explicava. Talvez porque se achasse que não entenderíamos, talvez porque a barreira entre as obrigações dos Pais e a existência dos Filhos, fosse estanque, separada, engavetada em meia dúzia de noções que entretanto abandonámos.
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Estão mais expostos os nossos filhos, sem dúvida, mas mais fortes, também.

28 Apr 2010

Aqui começa hoje a votação aos textos sobre a Páscoa, onde este meu entrou ;) .. tendência de voto?!?.. nada disso, nada disso *

.. e aqui, comecei ontem mais uma série, desta vez de simples retratos. Só isso. Pedaços.

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porque se é para voltar, é para trabalhar, menina ! (avisam-me ..) ;)
.. são imensos os planos de futuro. Será assim tudo tão simples pergunto-me? Normalmente, naturalmente e com outros mentes à mistura, mentiras aparte, o facto é que as coisas são por norma simples, transparentes, lineares e muito fáceis de alcançar.
O grande busílis desta questão está na auto confiança e falta dela, na auto estima e sua inexistência e em todos os opostos de que somos capazes desde que nos lembramos de respirar. É por tal que há quem viva uma vida de faz de conta e se orgulhe disso e quem se dedique a salvar a vida dos outros e faz com que nos orgulhemos disso.
Somos mais positivos se estivermos rodeados de gente positiva? Sem dúvida. E agimos de forma mais coerente se identificarmos a coerência nos comportamentos alheios? Penso que sim.
Tal como rapidamente resvalamos para o contrário de tudo isso quando quem está a nosso lado passa todos os momentos disponíveis a lamentar-se da triste sina que lhe saiu quando alguém decidiu conceder-lhe um tempo a que pomposamente chamamos vida.
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Isto vem a propósito de quê? A propósito de tudo. De nós, da nossa vida, das nossas opções na parafernália de escolhas que temos pela frente, da procura, da melhoria, da ambição, da felicidade - aquela real que se sente e se vive e raramente se apregoa ;)

27 Apr 2010

.. limpo devagar o pó que se acumula nos cantos dos textos, sob os comentários, nas esquinas dos sorrisos e das palavras bonitas que pautam o meu diário.
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Devagar porque se espirro corro o risco de partir a cabeça como o provam as estatísticas daquele anúncio com que somos brindados na televisão nacional ;)
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.. abro as janelas de par em par, sacudo sofás, almofadas e tapetes, passo por água os copos abandonados ainda com vestígios de baton e vinho .. despejo cinzeiros e acendo velas cheirosas.
Estamos de volta.
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13 Apr 2010

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.. mais uma participação :) e outra promessa: até breve*
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16 Mar 2010

Participei com este já vosso conhecido.
Acho que foi sempre desta forma que Meu Pai viu a sua Beira, ainda que eu nem sempre o tenha percebido ;))
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Espero que gostem *
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10 Mar 2010

you'd better walk the walking ..

.. i'll be back :)

8 Mar 2010

Don’t you ever try to understand women.
While you think .. they feel. They are beings from the heart.


Anthony Quinn, no filme Las Nubes

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Thank You Sire :))

3 Mar 2010

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As tarefas fáceis não me seduzem. A montanha tem de ser difícil .. Os que me conhecem facilmente me atribuem esta sentença, mas desenganem-se, não o é, pertence sim a João Garcia, proferida em vésperas da partida para o Nepal onde tentará concluir o projecto de conquista dos 14 cumes mais altos do mundo sem oxigénio artificial. Doido? Não! Simplesmente motivado por algo maior, mal alto neste caso na verdadeira acepção da palavra, melhor no seu ponto de vista, algo que o complete, que o torne igualmente conhecido (será um dos dez alpinista do mundo a conseguir tal coisa, e o primeiro de nacionalidade portuguesa).
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Mal comparado, ainda que nada tenha contra a epopeia para o sucesso da qual endereço desde já os meus votos, mas escrevia, mal comparado, olho ao meu redor e gostaria de ver este ânimo, este empreendorismo, esta noção de que se consegue, não interessa o quão difícil, a única coisa sem remédio nesta vida é mesmo a morte, por enquanto claro, portanto, mãos à obra, mangas arregaçada e vamos para a frente que atrás foi passado.
E vejo. Felizmente vejo esta força mas infelizmente só quando a tragédia nos toca à porta. Quase sempre e apenas quando a tragédia se faz amiga com requintes de malvadez, surpreendendo tudo e todos. Na maioria dos outros dias em que escoamos a nossa vidinha limitamo-nos às queixas, às cobranças, ao maldizer, à falta de civismo e de educação, à falta de paciência, e acima de tudo, à falta de amor-próprio e de integridade tantas que são as situações ridículas a que nos expomos, fazendo-nos passar pelo que não somos, de tal forma que acabamos por esquecer não quem mas o que somos (sempre me intrigou como se consegue tal feito durante tanto tempo .. no tempo)
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Continuemos.
Até à próxima vez em que algo faça bater mais forte o coração, assomar aquela cor rosácea ao rosto, e fazer-nos decidir intervir.
Quem sabe não chegamos ao cume também .. (?)
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26 Feb 2010

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.. semana complicada esta. Entre emails com retratos robot de violador identificado muito próximo de nós, alertas para não sair de casa este fim-de-semana devido às condições (será mais à falta delas .. ) atmosféricas, acções de solidariedade para de novo tentar minimizar o que os homens não controlam (ainda que muitos achem que sim) e uma parafernália de situações a resolver, sem resolução, resolvidas (ganham estas, saldo a meu favor .. ) o Once bate o pé de impaciência e eu com tanto para lhe contar ;)
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Fica para a semana .. ou para a outra *
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Um bom fim-de-semana caseirinho para todos .. *
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22 Feb 2010

The difference between the right word and the almost right word is really a large matter
— it's the difference between a lightning bug and the lightning.
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Mark Twain
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e ainda assim tanto falam aqueles que nada acrescentam, nada dizem, só aborrecem.
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:) Nice week to you all*

19 Feb 2010

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Vinha cheia de ideias. Fervilham e esboçam um princípio, meio e fim, por vezes cheias de voltas qual linha ou lã rebelde em mãos experimentes. Vinha a caminho, no meio do trânsito e começava a delinear-se por aqui aquilo sobre o que iria escrever hoje.
Era até uma ideia algo engraçada ainda que, mea culpa, batesse no velhinho tema que gosto de debater.
Mas depois .. bom, depois o bendito semáforo fez com que parasse, uma mirada no retrovisor, outra no espelho lateral e fui brindada, meus Amigos, com o mais belo arco-íris há muito visto.
Assim mesmo. Ali a cobrir todo o céu de que azul passava rapidamente a cinzento, cores bem definidas, todas juntas, promessas de ouro .. brilhante. Magnífico.
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Resultado? Para vossa sorte fiquei sem mais palavras ;)
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Tenham um excelente e colorido fim-de-semana *
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18 Feb 2010

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Quando a doutrina ideológica se transmuda em realidade, já não é preciso que o ditador esteja perto para espalhar o medo.
Os cidadãos comuns chamarão a si essa tarefa.
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Kim Hyun Sik é investigador na Universidade George Mason. Durante 38 anos foi professor de russo na Universidade de Educação de Pyongyang.
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É assim que me parece estar a viver.
Sucedem-se as más notícias num país que amo e que não prima nunca pelas boas notícias. Segundo a explicação que um dia me deu alguém que se tornou um bom amigo, as boas notícias são naturais, não fazem manchete nem vendem jornais. Não são portanto publicáveis. É pena. Olho à minha volta e vejo acima de tudo um grande desânimo.
Uma negatividade espessa que se agarra à esperança de alguns anulando-a. Um encolher de ombros aos 10% de desempregos, um esgar de indiferença às demissões na PT, um ar de desprezo ao assunto das escutas.
Nada.
Reacção alguma.
Como se todos já tivéssemos perdido a esperança que alguém pode, alguém deve, nós conseguimos. Conseguiremos?
É nestas alturas que penso deveriam ser notícia as boas notícias. Aquelas que nos falam das curas conseguidas para doentes terminais, as que nos informam do número de casas que se conseguiu para os desalojados, as que nos dão conta do trabalho desenvolvido por tantos anónimos para o bem-estar comum, as que nos trazem novas de todos os portugueses envolvidos em projectos por esse mundo fora, projectos cuja mais valia será para o mundo. Para nós.
É nestas alturas em que cada vez menos vejo sorrisos, oiço gargalhadas, que alguém deveria ter por missão exclusiva levantar o moral das tropas num Good morning, vietnam adaptado às circunstâncias.
Porque se é difícil viver sem esperança, mais difícil ainda se torna sabê-la aí .. Inacessível, interdita.
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Os cidadãos comuns chamarão a si essa tarefa
Que não seja esta a tarefa que nos está destinada.
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17 Feb 2010

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The ultimate measure of a man
is not where he stands in moments of comfort and convenience,
but where he stands at times of challenge and controversy.
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Martin Luther King, Jr.
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12 Feb 2010

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Não tenho nada contra o dia dos namorados logo eu que sempre namorei muito. E que adoro namorar. Acho aliás que o termo namoradeira sem o prejuízo da quantidade se me aplica. Não tenho nada contra os corações felpudos e as almofadas com promessas de amor eterno que vejo nas montras, os cartões lamechas e os votos de felicidade eterna com o meu nome a dourado, prateado, azul e rosa, assim mesmo, à vez.
Não tenho nada contra as ofertas de prenda ideal, os ramos de rosas vermelhas, rosa e champagne, os convites para dançar, jantar, pernoitar. Não tenho nada contra as centenas de mensagens que recebo por email nas últimas duas semanas com soluções miraculosas para salvar o meu relacionamento, ou apimentar o meu relacionamento, ou até iniciar um outro relacionamento. Não tenho nada contra os ursinhos de pelúcia com a lágrima ao canto do olho e o arzinho triste de amor abandonado. A sério que não. Se tivesse diria.
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Mas esta manhã ao chegar ao meu carro tinha um coração vermelho de vinil colado no vidro da porta e se apanho o pretendente a namorado que teve a feliz ideia de assim me surpreender colo-lho nas sobrancelhas aos pedacinhos com requintes de malvadez. Juro que colo!
;)
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Tenham um loving week-end .. no espírito da coisa .. ou não :)
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11 Feb 2010

He spoke with a charming full voice, and when everyone was applauding, "how much", he asked, "would you have applauded if you had heard the original?""
Cícero - Oratório, book 3, chapter 56
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Numa altura que somos tantas vezes aplaudidos por .. nada. Em que juntamos as nossas mãos num aplauso sonoro por coisa nenhuma, vem-me à memória este pedaço de sapiência escrito há tantos, mas tantos anos atrás para provar, mais uma vez, que o mundo é redondo. Mesmo. Assim se confie na falta de memória dos homens que, como todos sabem, é um nome, feminino, singular.
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.. coisa nossa, portanto ;)
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10 Feb 2010

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Estou sentada na soleira da porta de casa outrora nossa. Abandonei à secretária que ocupo os escritos de uma vida e vim cá fora inspirar, quem sabe se pela última vez, o ar do trigo doirado num por-de-sol de cortar a respiração. 18:26 marcava o orgulhoso mostrador. Tempo para respirar, impus-me. A fachada precisa de obras profundas, os campos, lá ao fundo, em semi-abandono, têm de ser lavrados, as raízes daninhas arrancadas. As janelas entaipadas, soltas das tábuas que não deixam entrar o sol e a chaminé limpa dos ninhos de todas as espécies em busca de protecção. Como eu. Estou sentada na soleira da porta da casa outrora nossa. Observo a pele rugosa das minhas mãos, as finas estradas azuis que a percorrem como que à superfície. Umas escuras, outras claras. Pergunto-me se terei ainda forças para. À minha frente estende-se o mesmo horizonte que me acompanhou parte da infância. O mar continua azul lá ao fundo, pincelada no verde e cinza que se prolonga para lá da vista. Quantas vezes sonhei com este dia? .. imaginei-o diferente no meu mundo de esperanças. Imaginei-te aqui. E os nossos filhos à descoberta do girino mais rápido ou em caretas pelo amargo da azeda.
Como aquela garota que se aproxima. Cabelos soltos ao vento, calças de serapilheira atadas com um cordel. Tem um ar doce mas decidido a petiza. Que me quererá? Sentada.Velha e cansada. Sei que regresso para morrer e lamento. Lamento que não tenha a quem deixar o tanto que tenho para deixar. Olá .. aborda-me a garota. E nos seus olhos eu vejo um sorriso. Um sorriso de quem não sabe ainda que a vida .. não vai ser como a sonha.
Vou ter que fazê-la prometer-me que se esforçará para ser .. feliz.
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9 Feb 2010

..suspiro

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Recordo uma velha, muito velha.
Uma velha de mãos brancas e finas percorridas por estradas azuis.
Umas escuras, outras claras.
Recordo essa velha sentada nos degraus da escada de madeira de nossa casa.
Uma velha que me contava histórias de embalar, ainda que de olhos bem abertos, e me fazia prometer que seria feliz.
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(Que será feito dela?)
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8 Feb 2010

Embora similar à teoria da decisão, a teoria dos jogos estuda decisões que são tomadas em um ambiente onde vários jogadores interagem. Em outras palavras, a teoria dos jogos estuda as escolhas de comportamentos óptimos quando o custo e beneficio de cada opção não é fixo, mas depende, sobretudo, da escolha dos outros indivíduos.
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Quase que apostava que se houvesse
mais matemáticos e menos carpideiras
"este País cumprir-se-ia"
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4 Feb 2010

Obrigada :)

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e .. pois, como explicar? que ainda tenho um dia de férias e que o vou gozar inteirinho no dia de amanhã, parece-me um bom começo .. ;)
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Tenham um excelente fim-de-semana*
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Parabéns, Mestre!

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(...) "Não! plantai batatas, ó geração de vapor e de pó de pedra, macadamizai estradas, fazeis caminhos de ferro, construí passarolas de Ícaro, para andar a qual mais depressa, estas horas contadas de uma vida toda material, maçuda e grossa como tendes feito esta que Deus nos deu tão diferente do que a que hoje vivemos. Andai, ganha-pães, andai; reduzi tudo a cifras, todas as considerações deste mundo a equações de interesse corporal, comprai, vendei, agiotai. No fim de tudo isto, o que lucrou a espécie humana? Que há mais umas poucas dúzias de homens ricos. E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar a miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico? - Que lho digam no Parlamento inglês, onde, depois de tantas comissões de inquérito, já devia andar orçado o número de almas que é preciso vender ao diabo, número de corpos que se tem de entregar antes do tempo ao cemitério para fazer um tecelão rico e fidalgo como Sir Roberto Peel, um mineiro, um banqueiro, um granjeeiro, seja o que for: cada homem rico, abastado, custa centos de infelizes, de miseráveis (...)"
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Almeida Garrett, 04 de Fevereiro, 1799
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3 Feb 2010

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"..quando verbalizamos uma ideia ficamos reféns dela"
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Rosa Lobato Faria
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2 Feb 2010

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Estou cansada.
Cansada de segurar a porta do elevador e dizer bom dia sorridente a quem lá vem dentro sem obter resposta ou sorriso equivalente. Cansada de esperar que passem todos, os mais velhos e os mais novos na passadeira sem acelerar, derrapar, guinchar pneus, como vejo fazer imediatamente atrás de mim. Cansada de ser correcta e educada, ensinar a filha a ser correcta e educada para depois ser ridicularizada por uma professora que coitada, é só a directora de turma. Só. Sem qualquer responsabilidade acrescida portanto, numa altura em que para pessoas como a dita senhora ser professora é .. (algo que a própria ainda não descobriu). Cansada de cumprimentar, agradecer, pedir por favor. Facilitar, ceder. A sério. Nos tempos que correm mais rápidos que o que se consegue viver penso ser algo obsoleto, perfeitamente antiquado e objecto daquele irritante sorrisinho condescendente que alguns imitam tão bem, a cordialidade, a urbanidade e acima de tudo, a educação. Aquela real. A de berço.
Estou cansada de me ver envolvida em questões de consciência. Mesmo. Acho aliás que uma das resoluções deste ano redondo será mandar a minha querida e estimada consciência às urtigas. Assim mesmo. Sem apelo nem agravo. Porque diabo tenho eu de me consumir em assumir a postura mais correcta, ponderada, serena e pensada se ao meu lado as pessoas atiram-se para o chão e fazem uma birra digna de criancinha de 3 anos porque perderam o lugar de estacionamento x no meio de centenas de outros disponíveis? Não me explicam? Porque razão tenho eu de me esforçar em considerar todos os ponderandos e considerandos da minha pobre existência quando vejo outros, com responsabilidades maiores que o verbo a dizerem hoje o que juram a pés juntos não disseram, amanhã.
Portanto.
Assumo que estou cansada.
E sei que isto não é nada bom. Nada bom, mesmo.
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1 Feb 2010

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Chega cedo.
Invariavelmente muito cedo. Traja-se e corre afogueada até à box do reef. Ou do quasar. Ou da luna. São os três favoritos no meio de tantos outros favoritos também. A coisa tinha começado por aqui meio à experiência, num a ver vamos se é isso mesmo que queres que a mãe da garota é exigente com tudo o que é curricular. Os extras nas actividades a que a minha filha se dedica têm todo o meu apoio, entusiasmo, palmas e lágrimas de comoção mas não faço deles cavalos de batalha (fica bem aqui este não fica?) ;) ou concretizações tardias de sonhos meus.
Chega cedo, traja-se e corre para a box do seu cavalo. Trata, arreia, aquece, prepara, monta e alimenta.
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A aula voa mummy, diz-me ao fim de duas horas e meia.
Passa sempre a voar tudo aquilo que nos apaixona fazer, princesa. Sempre.
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29 Jan 2010

Tal e qual. Incompreensivelmente na mesma.

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bom fim-de-semana *
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28 Jan 2010

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when you judge the others you are not defining them
.. you’re defining yourself
Wayne Dyer
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Foi usada aqui pela primeira vez esta frase. Num postal antigo, a propósito de um desafio lançado por alguém de quem tenho deveras muitas saudades :) mas o que me faz trazê-la de novo à vida é a diferente percepção que tenho hoje do que a mesma significa.
Se na altura a postei para me definir, hoje acho, por tudo o que me rodeia que percebo e por tudo o que me rodeia que não quero perceber, que o melhor mesmo nesta coisa de julgamentos, opiniões caústicas, postas de pescada e afins .. é o silêncio.
Esse mesmo. O de ouro.
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Sorry Mr. Dyer.
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explained!


Que vantagem têm os mentirosos?
A de não serem acreditados quando dizem a verdade
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Aristóteles

27 Jan 2010

Por causa do que li aqui (Obrigada, Caro Tomás) que me levou a ler o que se escreveu aqui, fui buscar este meu texto, já antigo, não fruto de experiência pessoal (como se alvitrou na altura da sua primeira publicação) mas fruto de algo que não entendo.
Como puderam?
Como?
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A carruagem avançava em marcha lenta, penosa.
O cheiro a pessoas e bichos era insuportável no espaço pequeno e abafado. Um cheiro que a faria vomitar houvesse algo no estômago há muito vazio.
Sentada, muito apertada, junto à janela perdia-se na paisagem que passava devagar lá fora. Campos outrora cultivados de verde e amarelo de onde certamente lhe acenariam e sorririam ceifeiras de lenço garrido na cabeça. Tractores brancos e vermelhos a lavrar as grandes extensões, preparar a terra para o cultivo dos cereais, cereais pão. Coisa tão rara que lhe havia esquecido o sabor. E animais no pasto, um pasto verde para vacas, ovelhas, cães pastor em alegres correrias. Tão diferentes dos que agora pendiam em trelas e coleiras nas mãos daqueles guardas.
Um pasto verde onde agora tudo era negro, seco, fumegante e desolador.
Certamente teria sido assim. Decerto que aqueles campos de passagem, à sua passagem para um destino incerto e sem futuro, já haviam sido dourados de seara pronta ou vestidos de verde-milho. Acreditava nas histórias que o avô lhe contava sobre o mundo antes deste mundo. Não era perfeito, como ele sempre frisava, mas era livre, verde, havia terra para cultivar, escolas para aprender, pão na padaria e carne no talho. Por vezes, contava ele, o pai e a mãe tinham de se sacrificar para que a comida chegasse para ele e para os irmãos. Ela gostava de ter tido assim uma família. Mesmo em sacrifício. Prendia-se, como que à força e para nada esquecer, em todos os detalhes da narrativas. Que herdava do irmão mais velho os calções e os sapatos. Que quase sempre levava pão e leite na merenda da escola. E custava-lhe a acreditar que houvesse naquela altura um céu azul, um mar para tomar banho no Verão, matas onde se podia brincar, pessoas e carros e crianças nas ruas .. sem medos. Impossível, uma vida sem medo. O avô contara-lhe esta história vezes sem conta. Tantas quantas as que ela lhe pedia. E os seus olhos cegos pareciam brilhar à luz da pequena vela de cada vez que começava com quando eu era pequeno .. ela embevecida, sonhadora, embalada pela voz quente e meiga do avô que não conseguia imaginar menino, embarcava para um mundo desconhecido, pouco provável, muito pouco real. O mundo em que o avô havia vivido não era o seu. Quem sabe um outro planeta, chegou a acreditar.
.. a carruagem avançava numa marcha lenta, penosa. Lá fora, no céu negro e sem luz, pássaros enormes, para os quais não tinha nome sobrevoavam em circulo o gradeamento que viu abrir-se à sua frente. Um gradeamento pesado, electrificado e guardado por coisas iguais aos gorilas que via no único livro que ainda tinha. Desceu, trémula, os enormes degraus, deparando-se-lhe uma multidão igual a si mesma. Olhos encovados, faces escanzeladas, bocas de fome. Roupas rasgadas, descalços. Milhares de mulheres. Centenas de crianças. Uma enorme tabuleta gritava em letras vermelhas o nome daquele inferno.
Auschwitz.. oxalá o avô tivesse chegado ao fim da história.
Contado como acabara aquele mundo onde ela gostaria de ter vivido.
Talvez pudesse, de alguma forma, perceber o sentimento que lhe dizia ter o seu acabado também.
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25 Jan 2010

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Ele nada tinha para lhes dar, mas elas insistiam em receber
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.. fantástico conto! Gostei muito Sofia :)
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Acordar às 3 da manhã com uma gritaria na escada do prédio é banal. E é-o porque infelizmente as pessoas perderam o decoro, a intimidade, e uma discussão de porta aberta com ligeiros ruídos de outras portas a abrir para melhor ouvir é certamente motivo de demorada conversa de café nas manhãs e tardes seguintes. Do parece impossível até ao já viram esta pouca-vergonha, expressão que, a propósito, nunca entendi, entre perguntas sobre se será melhor chamar a policia, antecipando gulosamente o tchanam que isso causará, às lamurias dos mais velhos e aos choros das crianças acordadas em sobressalto, tudo serve para uma noite que, de sono pacificador passa rapidamente a insónia.
E quem estava profundamente adormecido à hora em que todos deveriam estar profundamente adormecidos, desengane-se se pensa que uma almofada na cabeça chega para o poupar a tal devaneio. Depois da discussão de porta aberta, coisa que começou por demorar umas duas horas e hoje em dia, felizmente ou porque o assunto é de somenos importância, não tem chegado aos quinze minutos, por norma o macho lá do prédio corre escada abaixo, botas de cowboy de biqueira aprumada, milhares de palavrões na boca que verbaliza alto e bom som enquanto percorre, em passo corrida, os degraus dos andares que separam o seu, da rua.
Finalmente fecha-se a porta do prédio em estrondo, acalmam as cusquices das vizinhas, recolhe em lágrimas a pobre vitima, calam-se as crianças e sossegam os idosos.
Eu?
Bom .. eu fico onde estava, deitada na cama, furiosa por me terem acordado e com uma questão que não tem resposta: se é para isto para que vive esta gente junta, Deus Meu? se não é para ser feliz, porque raio insistem?
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22 Jan 2010

Realize that life is a school and you are here to learn.
Problems are simply part of the curriculum that appear and fade away like algebra class
but the lessons you learn will last a lifetime
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Algebra?
that explains a lot!
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;) nice week-end*
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21 Jan 2010

A Lista

Nada de muito complicado, Duarte, como pode facilmente constatar numa rápida mirada aos items mais abaixo: ;)

Afinal o que é que querem, foi imprudente caro confrade de lides blogosféricas, e agora, se à interrogação se segue afirmação vá lá em tom condescendente, prepare-se cavalheiro, que não o estou a ver negar-nos este prazer, portanto:
Afinal o que é que querem? Ao que se seguiu, está lá escrito, escusa de fazer-se desentendido, um Catarina, mande lá a lista ..

Queremos classe, queremos coisas bonitas em formatos bonitos, bem vestidos, dentes tratados, cabelo saudável, queremos ar de desprotegidos a pedir colo e queremos ar de contra tudo e contra todos anda cá que te protejo, queremos charme, sorrisos e olhos bonitos, mãos tratadas ou calejadas desde que autênticas, e sabe que mais?
Queremos já!

;))

20 Jan 2010

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Péricles e Sólon e os princípios da democracia em Atenas, debita a mais que tudo com teste de história a aproximar-se a passos largos. Acabar com a escravidão por motivo de dívidas, parece-me uma excelente medida mummy mas podiam ter aproveitado para acabar com ela por todos os motivos, coisa que só se vem a verificar alguns séculos depois, não foi? Hum, hum, respondo-lhe enquanto dobro meias, collants, perneiras e afins. E mummy? Sim?
..sabias que os tribunais eram constituídos por seis mil pessoas e só um homem era responsável pelo manter da ordem? Ahhh exclamo, pensando na nossa reduzida, revolta e pouco ordeira Assembleia.
Péricles disse ainda que doravante seria atribuído um subsídio a todos os homens que exercessem cargos políticos, é justo! Continua a miúda. Assim os mais pobres podiam concorrer a cargos públicos, continua. Mummy? Conheces alguém muito pobre que tenha chegado a Governante? Assim de repente querida, espera .. deixa-me pensar.
E Aristóteles Mummy, sabes quem é certo? .. Certo, respondo, suspirando. Faltam-me três meias, detesto quando isto me acontece. Aristóteles defendia a democracia ateniense como sendo forte e com bases seguras dado que as magistraturas não podiam ser exercidas pela mesma pessoa mais que uma vez e eram de curta duração. O professor explicou-nos que era acima de tudo para evitar a corrupção.
Mummy
?
Sim querida? (encontrei um dos pares fugitivos, menos mal) a páginas tantas (esta expressão é minha, diabinho de clone!) os homens futuros perderam algo dos antigos, não achas?
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Os homens futuros, engraçada a equação de uma mente de doze anos que salta magistralmente sobre o presente que parece, até a ela, não interessar.
Homens futuros.
São eles.
Os nosso filhos.
Que lhes saibamos transmitir tudo o que vão precisar para emendar o que fazemos no presente.
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19 Jan 2010

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.. é engraçado como as coisas se repetem. Às vezes penso que somos sempre os mesmos a fazer as mesmas coisas. Outras gosto de acreditar que conseguimos inovar, melhorar e melhorar-nos, aprender e ensinar. Modificar, viver e sentir de formas diferentes assim nos entreguemos aos sentimentos e às pessoas de forma intensa, única, ou a acharmos única, a acreditarmos intensa.
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Mas depois .. bom, depois contam-me uma historieta engraçada e por uma simples frase dita da mesma forma, à mesma hora e em circunstâncias quase tão iguais que até assustam, chego à conclusão que somos sempre os mesmos e o que fazemos agora já fizemos antes e faremos provavelmente num futuro próximo ou longínquo .. de onde concluo que mudança e singularidade, precisam-se!
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Coisa redonda o Mundo, safa!
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18 Jan 2010

Hoje, fiquei-me por aqui :)

.. trabalho, muito trabalho, imenso trabalho!
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* Boa semana *
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15 Jan 2010

readings (xxi)

Brilhante este texto de Pedro Correia. Era bom que lessem por esta cartilha também todos os que têm por missão informar-nos.

Por aqui, em casa da Cristina, continua a decorrer a Rua da Memória. Gostaria mesmo, mesmo, como já disse à Autora, de ter esta encadernação na minha estante ;)

O Senhor Rafeiro (mas) Perfumado foi-se embora sem me pedir autorização ;) Não sei se lhe desculpe a ousadia, se fique por aqui a torcer que a decisão tenha uma volta na próxima esquina!

A mistura de bem escrever e bem fotografar, bem receber com bom gosto e bom senso, é rara nos dias que correm. Temos galerias apinhadas de grandes obras sem uma linha explicativa, e pessoas, como eu, que fazem deste espaço um intimismo por vezes insuportável ;) e não conseguem perceber para onde apontar o olho da câmara.
Felizmente há excepções como o provam a excelência do espaço da Minha Amiga Luísa e outro que não pára de me surpreender: O do Senhor Alfaiate Lisboeta.

Leiam. E depois digam-me se não tenho razão ;)
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Bom fim-de-semana *
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14 Jan 2010

São tempos de luto.
E desta vez não por causa das guerras do homem contra o homem, da falta de humanidade, da arrogância e do despudor com que se tratam os nossos iguais nos quatro cantos do mundo. Não por causa da ambição, da falta de carisma, da desonestidade e do despotismo com o quais tantos outros escravizam os nossos iguais nos quatros cantos do mundo.
Não por nossa causa mas se calhar por causa de nós e das nossas causas. Ou não.
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O certo é que os tempos são de luto.
A Natureza, essa força indomável, revoltou-se. E revelou-se.
Estamos longe nós.
Muito longe para chegar um cobertor ou uma malga de sopa. Para dar tecto às crianças que ficaram órfãs, para levar os hospital os estropiados, magoados, para enterrar os mortos e consolar os que ficaram.
Mas estamos perto para poder ajudar, fazer a pequena diferença entre fazer algo e não fazer nada.
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À Caritas, organização que conheço bem, todo o sucesso neste amealhar de meios em tempo recorde.
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Tem de ser possível.
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13 Jan 2010

O psicótico vive assim aprisionado numa circularidade repetitiva que o impede de ser criador de si mesmo, para si mesmo, caindo no poço da inexistência mental e da gradual desertificação psíquica.

.. explicou-me há dias uma boa amiga, psicóloga de formação e profissão, que são várias as psicoses de que sofre o Homem moderno. Sendo que a que acima se explica é a principal responsável por esta falta de compromisso, este apontar de baterias afiladas a vários objectos ao mesmo tempo, este procurar incessante ainda que se encontre, passa adiante e continua a procurar, filtra, côa, bica aqui e acoli.
É engraçado como em tempos expliquei uma postura semelhante, obviamente que não com estes termos elaboradíssimos de quem sabe do que fala e escreve, mas como leiga profunda.
E leiga no sentido de não entender até hoje como se repetem circularidades sem nunca se lhes encontrar a outra ponta.

Inspirado aqui este. Deixou-me a pensar Luísa :)
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12 Jan 2010

memories

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As pequenas cartas espalhadas na mesa e viradas para baixo.
Da caixa de onde saíram está ainda o cheiro a louro e alfazema que habitava a casa da avó por aquelas alturas. Um cheiro adocicado que se prendia às roupas, à cama, ao ar.
As pequenas cartas têm as primeiras figuras conhecidas das personagens de Walt Disney, actrizes e actores do velho cinema, paisagens de pastores guardando rebanhos ou simples representações de folhas e flores.
Conhece-as a todas de cor. Sabe as estórias que a avó lhe contava sobre cada conjunto, também de cor. Os cantos estão gastos, amarelecidos, de tanto manusear em arrumos ou paciências solitárias. Lembra-se de ter casado o lobo com o carneiro numa negação de predador-presa ainda sem perceber que diabo era a cadeia alimentar, simplesmente por achar que aquele bicho feio e preto não tinha culpa de ter nascido assim e que para brincadeiras felizes lhe faria bem um companheiro branco e lanudo. Lembra-se da gargalhada da avó quando lhe expôs a lógica não em busca de aprovação mas porque assim entendia que deveria ser. Ugly things together with beauty ones, dear? perguntara-lhe na altura de sorriso nos lábios, e ela ponderou a pergunta com ar ausente de menina pequena e respondera it's the fair way granny, o afago nos cabelos revoltos e compridos e a pressão no ombro deram-lhe a entender que a avó não pensava de outra forma.
As pequenas cartas espalhadas sobre a mesa agora todas viradas para cima .. e o pastor sorri-lhe do alto do monte verde com o rebanho aos seus pés, as árvores parecem ondular numa brisa suave que cheira a eucalipto, e aquela nuvem branca e serena num céu imaculado e azul lembra-lhe outros jogos, jogos de vista, deitada na relva, braços cruzados atrás da cabeça, a avó sentada numa manta tricotando e a pergunta is there a … ?, deixando-a completar a figura, antecipando a descrição da coisa mais inverosímil à primeira mas perfectly there, i can see
.. as cartas, as plantas, árvores e folhas representadas numa pintura perfeita em tons suaves do verde ao laranja, passando pelo amarelo torrado (não há nenhum lápis com esta cor, pensava, tentando reproduzir), o castanho-terra e o outro mais claro que se mistura num vermelho ocre para dar a entender que é Outono
.. recorda a apanha das folhas no jardim da casa da avó, pendurá-las em ráfia na cozinha ou guardá-las no meio das capas dos livros à espera .. waiting for granny? .. they’ll get older, assegurava-lhe.
As pequenas cartas agora empilhadas, conjuntos coerentes e um grosso elástico, dos antigos, à volta de cada um, de volta à caixa de madeira onde sempre eram guardados com cheiro a louro e alfazema, que habitava a casa da Avó por estas alturas.
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texto reeditado.

11 Jan 2010


Trouxeram-me um bloco pequeno de Praga.
Na capa, Kafka percorre a cidade, toda amarela, de prédios baixos e árvores frondosas. Em grandes letras brancas sobre o preto do rebordo, o nome do escritor. Em baixo, com o mesmo tamanho e importância, o nome da cidade. Prague. Não conheço esta cidade. Talvez um dia dê por mim a percorrer aquela avenida aqui reproduzida à distância dos meus dedos, de sobretudo e bengala na mão, chapéu enfiado na cabeça, como o escritor aqui representado, e pense que entrei de cabeça no pequeno bloco de Praga que alguém achou que eu gostaria de receber, presa que sou nas viagens ao que desconheço e nas letras que tantos escreveram.
Ou talvez, quem sabe, a cidade mude entretanto de cor, e em conversas animadas no parque que se vislumbra o escritor finalmente descanse, pouse o chapéu e a bengala e se entretenha a contar histórias que “piquem” e “mordam” às aves que regressam à procura do tempo quente e palha para o ninho.
Estou quase, quase a vê-lo fazer tal ..

"Apenas se deveriam ler os livros que nos picam e que nos mordem.
Se o livro que lemos não nos desperta como um murro no crânio, para quê lê-lo?"
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8 Jan 2010

da pobreza (i)

Há-a em várias formas, modelos, exemplos, conteúdos e teores.
A de espírito parece-me a mais grave uma vez que não te cura. Mas não é de pobrezas de espírito e de pessoas naturalmente estúpidas que me vou ocupar numa das sextas-feiras de cada mês, deste ano que ainda agora começou.
E para começar (redundantemente, pelos vistos) uma sexta-feira por mês dá qualquer coisa como doze histórias, se a matemática não me falha, o que é imenso; se não o conseguir que seja por algo que me incapacite e não por vontade de quebrar promessas. Prometo muito pouco. Se calhar porque cumpro tudo o que prometo.
A pobreza que me traz aqui, que deu origem à arrumação da barra lateral onde diariamente se substituem fotografias, é a Real. A resistente, áspera. A carência, escassez, verdadeira penúria.
A desesperança.

E, nunca tendo sido pobre, considero-me apta a falar do assunto, o que vou fazer na forma de pequenos contos. Aqui absolutamente reais e baseados em todo o voluntariado, campanhas, acções e actividades, que me ocupam grande parte dos dias de todos os anos e não só deste, ora dedicado à erradicação da pobreza e da exclusão social. A única não verdade no que escreverei doravante, serão os nomes dos intervenientes. Porque neste caso, todos eles têm uma cara. Uma vida. E a possibilidade de a mudarem. Sem que para isso, precisem de publicidade.

E para todos os que a esta hora estejam a pensar no confortável chavão em vez de dares o peixe ensina a pescar relembro-Vos que a fome não espera e alguém cujas necessidades básicas não estão minimamente satisfeitas não tem certamente a força necessária para desenrolar uma rede ou segurar a cana de pesca (o que Maslow, cuja psicologia humanista admiro imensamente, explica muito melhor, aliás).

O ideal?
O ideal não existe.
É isso que nos faz ir mais longe, tentar de novo, cair e erguer. Mas diria que a possibilidade razoável seria conseguir alimentar e ensinar. Prover e providenciar. Colmatar e preparar. E isso, no meu humilde ponto de vista, cabe-nos a todos os que de nada precisamos, nada nos falta, temos para nós e para os nossos. Porque em qualquer altura da vida, por um tropeção, azar, contingência, injustiça, irregularidade ou outro palavrão qualquer, podemos estar à beira, beirinha, de ter de estender a mão.

E não. Aqui não vale a pena chamarem-me utópica.
Tudo o que o grupo de gente anónima e solidária ao qual me orgulho de pertencer já conseguiu ao longo dos anos prova bem que não se fala de utopia neste particular, mas sim de vontade.
Boa-Vontade.
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7 Jan 2010

Aniversário

Faz três anos este meu Diário :) e orgulhoso pela memória da dona que este ano não o esqueceu, ofereceu-me esta manhã um flash-back que me encantou.
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Passou por aqui nos primeiros tempos em que timidamente dava uns passos pelo mundo so called virtual, iniciou um caminho longo, proveitoso, em recta ou curva apertada no qual cresceu em termos qualitativos e quantitativos (não sou eu que o afirmo, mas sim os comentários vossos e de tantos outros que recebi ao longo destes três anos), fechou-se em copas durante uns meses para penar, sofrer, amargar, reconstruir e respirar fundo (quem afirmou que crescer sem sofrer é possível deveria reequacionar as parcelas), foi alvo de investidas pouco honestas e por isso mesmo ignoradas, mantendo-se contudo inalterável na sua forma e conteúdo, talvez um pouco mais prudente .. ou menos crédulo, ou ambos ;) aprendeu imenso com tudo o que leu, concordou tantas vezes quantas as que discordou.
Arvorou-se desconsiderado quando a senhoria se iniciou em outras lides, que me são tão gratas quão grato é escrevê-lo quase todos os dias ao longo destes tantos dias que passaram desde o dia que lhe dei um Nome: Once.
Once ficará até ao dia em que definitivamente o fecharei. Um legado. Para mim, para que eu possa, quando me apetecer ou a memória falhar, recordar. Para a minha filha, menina que pauta quase cada linha que escrevo, que lê, opina, emociona-se ou ri à gargalhada. A minha maior crítica, sem dúvida.
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A Vós, que dele também fazem parte, lendo e comentando, que as minhas letras continuem a ser apetecíveis e que eu possa continuar a contar, por aqui, com a vossa companhia.
Enquanto o quiserem. Enquanto eu quiser. O meu Obrigada.
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Ao Once, em todas as suas versões, cujo fio condutor se mantém e manterá, os meus parabéns. Não é fácil ser como ele é: Meu. Eu.
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6 Jan 2010

Biblical Magi or Three Wise Men

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" (...) A melhor descrição dos reis magos foi feita por São Beda, o Venerável (673-735), que no seu tratado Excerpta et Colletanea assim relata:
“Melchior era velho de setenta anos, de cabelos e barbas brancas, tendo partido de Ur, terra dos Caldeus. Gaspar, era moço, de vinte anos, robusto e partira de uma distante região montanhosa, perto do Mar Cáspio, e Baltazar era mouro, de barba cerrada e com quarenta anos, partira do Golfo Pérsico, na Arábia Feliz.

Quanto a seus nomes, Gaspar significa Aquele que vai inspeccionar, Melchior quer dizer Meu Rei é Luz, e Baltazar traduz-se por Deus manifesta o Rei.
Como se pretendia dizer representavam os reis de todo o mundo, as três raças humanas existentes, em idades diferentes.
Assim, Melchior entregou-Lhe ouro em reconhecimento da realeza, Gaspar, incenso em reconhecimento da divindade e Baltazar, mirra em reconhecimento da humanidade." (...)"
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O destaque nas palavras é de minha autoria.
Talvez para me lembrar que a equação é simples: Respeito, Fé e Humanidade.
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Não será difícil reconhecer os ingredientes, concordo, mas olhando o Mundo lá fora e cá dentro, como se obterá a receita?
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*Feliz Dia de Reis*

5 Jan 2010

«Sentados a uma mesa da taberna A Catedral, o jornalista Santiago Zavala conversa com o seu amigo Ambrosio. Estamos em Lima, na época ditatorial do general Manuel A. Odría (1948-1956), e dessa conversa, acompanhada de cerveja, emerge um Peru cruel, corrupto, desesperançado, matéria-prima ideal, portanto, para um romance que só um grande jornalista e escritor como Vargas Llosa poderia ter produzido.
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Recebi-o no Natal.
Entre compromissos, visitas, almoços e lanches, algum voluntariado que nesta altura assume, para quem o recebe, uma importância maior que o verbo, viagens de Final de Ano e Consoadas, tenho andando com ele debaixo do braço. Ontem a princesa, olhou-me muito séria e proferiu: mummy, deve ser fantástico esse livro! (acho que me chamou umas vinte vezes antes de me conseguir arrancar da página por onde viajava) ;)
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Sou admiradora da obra e do escritor jornalista como aqui aparece referido. Um escritor duro, de palavra cheia de significado, que escreve sobre o que se passa, passou e provavelmente vai passar-se de novo com a Humanidade à qual, por vezes em alguns desabafos (principalmente quando lido no original) não gosta particularmente de pertencer.
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Conversas na Catedral .. ou como alguns homens poderiam realmente mudar tudo. De tudo.
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4 Jan 2010

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Não adianta mudar de calendário,
quando todos os dias são iguais,
ou inscrever no rosto do diário
as intenções habituais.
O que importa é seguir, saltar o muro
e mergulhar inteiro no amanhã,
enfrentando os atalhos do futuro
de peito aberto e alma sã.
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E faço minhas estas palavras do Poeta, acrescentando ..

Não adianta abrilhantar
O que se sabe tem de terminar
Nem prometer
Aquilo que dificilmente se poderá cumprir
Enfrentar o futuro de sorriso
Crentes no que valemos e podemos
E de caminho dar a mão a alguém
Que tentando, não consegue sozinho
Parece-Vos difícil?
Asseguro-Vos que não é.
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Votos de um 2010 ..ímpar *
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