27 Jan 2010

Por causa do que li aqui (Obrigada, Caro Tomás) que me levou a ler o que se escreveu aqui, fui buscar este meu texto, já antigo, não fruto de experiência pessoal (como se alvitrou na altura da sua primeira publicação) mas fruto de algo que não entendo.
Como puderam?
Como?
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A carruagem avançava em marcha lenta, penosa.
O cheiro a pessoas e bichos era insuportável no espaço pequeno e abafado. Um cheiro que a faria vomitar houvesse algo no estômago há muito vazio.
Sentada, muito apertada, junto à janela perdia-se na paisagem que passava devagar lá fora. Campos outrora cultivados de verde e amarelo de onde certamente lhe acenariam e sorririam ceifeiras de lenço garrido na cabeça. Tractores brancos e vermelhos a lavrar as grandes extensões, preparar a terra para o cultivo dos cereais, cereais pão. Coisa tão rara que lhe havia esquecido o sabor. E animais no pasto, um pasto verde para vacas, ovelhas, cães pastor em alegres correrias. Tão diferentes dos que agora pendiam em trelas e coleiras nas mãos daqueles guardas.
Um pasto verde onde agora tudo era negro, seco, fumegante e desolador.
Certamente teria sido assim. Decerto que aqueles campos de passagem, à sua passagem para um destino incerto e sem futuro, já haviam sido dourados de seara pronta ou vestidos de verde-milho. Acreditava nas histórias que o avô lhe contava sobre o mundo antes deste mundo. Não era perfeito, como ele sempre frisava, mas era livre, verde, havia terra para cultivar, escolas para aprender, pão na padaria e carne no talho. Por vezes, contava ele, o pai e a mãe tinham de se sacrificar para que a comida chegasse para ele e para os irmãos. Ela gostava de ter tido assim uma família. Mesmo em sacrifício. Prendia-se, como que à força e para nada esquecer, em todos os detalhes da narrativas. Que herdava do irmão mais velho os calções e os sapatos. Que quase sempre levava pão e leite na merenda da escola. E custava-lhe a acreditar que houvesse naquela altura um céu azul, um mar para tomar banho no Verão, matas onde se podia brincar, pessoas e carros e crianças nas ruas .. sem medos. Impossível, uma vida sem medo. O avô contara-lhe esta história vezes sem conta. Tantas quantas as que ela lhe pedia. E os seus olhos cegos pareciam brilhar à luz da pequena vela de cada vez que começava com quando eu era pequeno .. ela embevecida, sonhadora, embalada pela voz quente e meiga do avô que não conseguia imaginar menino, embarcava para um mundo desconhecido, pouco provável, muito pouco real. O mundo em que o avô havia vivido não era o seu. Quem sabe um outro planeta, chegou a acreditar.
.. a carruagem avançava numa marcha lenta, penosa. Lá fora, no céu negro e sem luz, pássaros enormes, para os quais não tinha nome sobrevoavam em circulo o gradeamento que viu abrir-se à sua frente. Um gradeamento pesado, electrificado e guardado por coisas iguais aos gorilas que via no único livro que ainda tinha. Desceu, trémula, os enormes degraus, deparando-se-lhe uma multidão igual a si mesma. Olhos encovados, faces escanzeladas, bocas de fome. Roupas rasgadas, descalços. Milhares de mulheres. Centenas de crianças. Uma enorme tabuleta gritava em letras vermelhas o nome daquele inferno.
Auschwitz.. oxalá o avô tivesse chegado ao fim da história.
Contado como acabara aquele mundo onde ela gostaria de ter vivido.
Talvez pudesse, de alguma forma, perceber o sentimento que lhe dizia ter o seu acabado também.
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