10 Feb 2010

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Estou sentada na soleira da porta de casa outrora nossa. Abandonei à secretária que ocupo os escritos de uma vida e vim cá fora inspirar, quem sabe se pela última vez, o ar do trigo doirado num por-de-sol de cortar a respiração. 18:26 marcava o orgulhoso mostrador. Tempo para respirar, impus-me. A fachada precisa de obras profundas, os campos, lá ao fundo, em semi-abandono, têm de ser lavrados, as raízes daninhas arrancadas. As janelas entaipadas, soltas das tábuas que não deixam entrar o sol e a chaminé limpa dos ninhos de todas as espécies em busca de protecção. Como eu. Estou sentada na soleira da porta da casa outrora nossa. Observo a pele rugosa das minhas mãos, as finas estradas azuis que a percorrem como que à superfície. Umas escuras, outras claras. Pergunto-me se terei ainda forças para. À minha frente estende-se o mesmo horizonte que me acompanhou parte da infância. O mar continua azul lá ao fundo, pincelada no verde e cinza que se prolonga para lá da vista. Quantas vezes sonhei com este dia? .. imaginei-o diferente no meu mundo de esperanças. Imaginei-te aqui. E os nossos filhos à descoberta do girino mais rápido ou em caretas pelo amargo da azeda.
Como aquela garota que se aproxima. Cabelos soltos ao vento, calças de serapilheira atadas com um cordel. Tem um ar doce mas decidido a petiza. Que me quererá? Sentada.Velha e cansada. Sei que regresso para morrer e lamento. Lamento que não tenha a quem deixar o tanto que tenho para deixar. Olá .. aborda-me a garota. E nos seus olhos eu vejo um sorriso. Um sorriso de quem não sabe ainda que a vida .. não vai ser como a sonha.
Vou ter que fazê-la prometer-me que se esforçará para ser .. feliz.
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